PREVENÇÃO: Saiba como se prevenir do ‘Aedes aegypti’

“Vedar, cuidar e eliminar. Esses são os meios de evitar que o Aedes aegypti nasça e possa se transformar em vetor de doenças. Todo mundo sabe que o mosquito Aedes aegypti é o transmissor da Dengue, Chikungunya e o Zika vírus, mas o combate ao mosquito é alvo constante de pesquisas. Impedir que ele se reproduza ou tentar evitar que ele consiga transmitir doenças são algumas das estratégias da ciência. A responsabilidade é de todos. Por isso fique atento com águas paradas, em qualquer lugar ele pode se reproduzir”, alerta doutora Fabiana Vieira, infectologista do Hospital Santa Cruz.

 

Aedes aegypti é o transmissor da dengue, chikungunya e do Zika: combate deve ser constante (Foto: divulgação)

Aedes aegypti é o transmissor da dengue, chikungunya e do Zika: combate deve ser constante (Foto: divulgação)

 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que entre 50 a 100 milhões de pessoas se infectam anualmente com a dengue em mais de 100 países de todos os continentes, exceto a Europa. Cerca de 550 mil doentes necessitem de hospitalização e 20 mil morrem em consequência da dengue. No Brasil, o quadro não é diferente, devido ao clima tropical,  o  mosquito Aedes aegypti se procriam com mais facilidades foram contabilizados um crescimento de 240% de casos em 2015 conforme o Ministério da Saúde.

 

A doutora Fabiana Vieira, do Santa Cruz (Foto: Luci Judice Yizima)

A doutora Fabiana Vieira, do Santa Cruz (Foto: Luci Judice Yizima)

Para falar mais sobre o assunto, a doutora Fabiana concedeu a seguinte entrevista ao Jornal Nippak:

 

Jornal Nippak: Quando o Zika vírus foi identificado pela primeira vez?

Fabiana Vieira: O Zika vírus foi identificado pela primeira vez em 1947 no macaco rhesus. A descoberta ocorreu a partir de um experimento com o intuito de estudar o vírus da febre amarela. O macaco foi colocado numa jaula em cima de uma árvore nos elevados galhos da floresta de Zika, em Uganda, para que fosse agredido por mosquitos florestais. Uma vez febril, o sangue do macaco foi coletado e inoculado no cérebro de camundongos para que o vírus se reproduzisse. Com o adoecimento das cobaias, foi possível adquirir grandes quantidades de vírus para pesquisa. Durante sua identificação, pesquisadores verificaram se tratar de um vírus diferente do agente da febre amarela e o nomearam de Zika vírus. Posteriormente, o vírus foi encontrado na natureza, no interior de uma espécie de mosquito do gênero Aedes da floresta de Zika. O primeiro caso humano foi detectado em 1954 na Nigéria, porém evidências sorológicas foram identificadas em humanos desde 1951.

 

JN: Como acontece a transmissão?

F.V.: A transmissão clássica ocorre através da picada de qualquer mosquito do gênero Aedes, seja em área urbana ou silvestre. Transmissão perinatal já havia sido descrita durante surto ocorrido na Polinésia Francesa (2013-2014), porém sem conseqüências graves aos bebês. A partir do atual surto de infecção em alguns estados brasileiros, especialmente no Nordeste, o Zika vírus demonstrou ser um novo agente causador de microcefalia através de sua transmissão por via intra-uterina, situação inédita no cenário mundial. A detecção do primeiro caso foi possível a partir da identificação do Zika vírus em sangue e tecidos de um bebê nascido no Ceará com microcefalia e outras malformações congênitas. A transmissão por via sexual e através de acidente com material biológico são outras vias de transmissão anteriormente relatadas em literatura. Transfusão sanguínea e aleitamento materno também são possíveis formas de transmissão.

 

JN: Quais são as manifestações da doença?

F.V.: A grande maioria das pessoas infectadas é assintomática. As manifestações clínicas, quando presentes, caracterizam-se pelo surgimento de manchas avermelhadas (exantema maculopapular ou rash cutâneo) associadas ou não a coceira, febre aguda intermitente com duração média entre 3-7 dias, vermelhidão nos olhos sem pus ou coceira, dores articulares, dores musculares e dor de cabeça. Manifestações menos freqüentes consistem em inchaço pelo corpo, dor de garganta, tosse e presença de sangue no esperma.

 

JN: Qual o tratamento?

F.V.: Não existe tratamento específico para a infecção por Zika vírus, tal como para dengue e Chikungunya. Como a doença apresenta sinais e sintomas parecidos com os que ocorrem na dengue e Chikungunya, recomenda-se que o tratamento seja realizado abrangendo ambas infecções. A terapêutica consiste em hidratação abundante, além de sintomáticos como paracetamol ou dipirona para febre e dor. Na presença de coceira pelo corpo o uso de anti-histamínico pode amenizar o sintoma. Não é recomendável o uso de medicamentos como AAS e seus derivados, nem antiinflamatórios devido ao risco de sangramento em casos de dengue. Importante ressaltar que todo caso suspeito de dengue, Zika vírus ou Chikungunya deve ser avaliado e conduzido mediante atendimento e prescrição médica. Evite a automedicação.

 

Jn: Qual é a relação entre o Zika vírus e a microcefalia?

F.V.: A correlação entre Zika vírus e microcefalia nunca havia sido descrita na literatura mundial antes do atual surto que está ocorrendo no Brasil. Em 28 de novembro de 2015, o Ministério da Saúde reconheceu a relação entre Zika vírus e microcefalia baseados nos seguintes fatos: Identificação de óbitos de recém-nascidos com malformações e padrão sugestivo de infecção pelo vírus no Rio Grande do Norte; Identificação de dois óbitos em diferentes unidades federadas com identificação do RNA viral do Zika vírus nas vísceras dos bebês e resultados negativos para outros vírus que podem causar microcefalia (sífilis, toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus e herpes simples); Evidência em literatura de que o Zika vírus é neurotrópico, ou seja, tem uma atração pelo sistema nervoso, e a constatação de que após o surto de microcefalia no Brasil, a Polinésia Francesa está identificando casos similares em seu território; A identificação do Zika vírus em líquido amniótico de duas gestantes cujos fetos apresentaram microcefalia no interior da Paraíba. Por que alguns bebês de mães que apresentaram infecção pelo Zika vírus desenvolveram microcefalia e outros não?

Será que é o próprio vírus que está causando diretamente as malformações nos bebês ou isso é devido à resposta imunológica de anticorpos maternos contra neurônios do bebê ou feto infectados pelo vírus?

A partir do segundo episódio de dengue, o risco de desenvolver a forma hemorrágica aumenta a cada novo episódio de infecção. O Zika vírus é da mesma família do vírus da dengue e possui partes de material genético semelhantes ao mesmo podendo, inclusive, apresentar reação cruzada em exames sorológicos de ambos, como já descrito em surto de Zika vírus na ilha de Yap (Micronésia). Sendo assim, será que as mães de bebês com microcefalia pelo Zika vírus não foram expostas previamente ao vírus da dengue, o que pode ter contribuído para uma resposta imune mais exacerbada nos neurônios dos bebês infectados por tal agente?

Essas questões ainda precisam ser esclarecidas.

 

JN: Quais são as recomendações para mulheres grávidas?

F.V.: São bem parecidas com as recomendações para prevenção de dengue: Evitar acúmulo de água que sirvam de reservatórios para a proliferação do mosquito Aedes aegypti, principal vetor transmissor de Zika vírus, dengue e Chikungunya. A proteção da casa através da colocação de telas em janelas, sempre que possível, e cobertura total de reservatórios de água, usar roupas que reduzam, ao máximo, a exposição da pele ao mosquito, principalmente durante o dia, Adotar o uso de repelentes registrados pela ANVISA, preferencialmente os que contêm DEET (n.n-Dietil-meta-toluamida), descritos como seguros para o uso durante a gestação. Além do DEET, no Brasil são utilizadas em cosméticos as substâncias repelentes a base de Icaridin ou Picaridin (Hydroxyethyl isobutyl piperidine carboxylate) e EBAAO ou IR 3535 (Ethyl butylacetylaminopropionate), além de óleos essenciais, como Citronela. Embora não tenham sido encontrados estudos de segurança realizados em gestantes, estes ingredientes são reconhecidamente seguros para uso em produtos cosméticos conforme compêndios de ingredientes cosméticos internacionais. Procurar, imediatamente, atendimento médico em caso de sinais ou sintomas sugestivos da doença, realizar, regularmente, o acompanhamento médico pré-natal.

 

JN: Há risco de microcefalia se a mulher engravidar depois de se curar do Zika vírus?

F.V.: Enquanto não houver esclarecimento de como a infecção pelo Zika vírus resulta em microcefalia, se por ação viral direta ou por resposta imunológica exacerbada da mãe contra neurônios infectados do feto ou, ainda, por exposição prévia ao vírus da dengue antes da infecção pelo Zika vírus, não temos como avaliar precisamente esse risco. O que se tem conhecimento até o momento é que os casos de microcefalia ocorreram em mulheres com sinais e sintomas sugestivos de infecção pelo Zika vírus durante a gestação.

 

JN: Há suspeita de associação do Zika vírus com outras doenças?

F.V.: Além da relação recentemente evidenciada entre Zika vírus e microcefalia, existe uma possível correlação, ainda não confirmada, entre a infecção por Zika vírus e síndrome de Guillain-Barré (SGB) em locais de circulação simultânea com vírus da dengue. O primeiro relato de caso de síndrome de Guillain-Barré possivelmente relacionada ao zika vírus, ocorreu em 2013 na Polinésia Francesa em vigência de epidemia de Zika vírus e dengue tipo 1 e 3. O paciente apresentou sorologia IgM e IgG positivo para Zika vírus e IgG positivo para dengue, o que coloca em dúvida a autoria única da SGB pelo Zika vírus. Exames que detectam a presença do vírus da dengue (NS1 e RT-PCR) e de Zika vírus (RT-PCR) foram negativos, porém coletados 8 dias após iníc io dos sinais e sintomas, período em que não se detecta a presença de vírus circulante no sangue por dengue ou Zika.

 

JN: O Zika vírus já provocou mortes no Brasil?

F.V.: Pelo menos 3 mortes foram confirmadas pelo Zika vírus: um homem portador de lúpus e usuário crônico de corticóides, uma adolescente de 16 anos e um bebê com microcefalia e outras malformações congênitas. Ainda estão em investigação pelo menos 37 óbitos de crianças com microcefalia que podem estar relacionados à infecção pelo Zika vírus (Boletim nº1/ 2016 – Ministério da Saúde).

 

JN: Como é feito o diagnóstico de Zika vírus?

F.V.: No momento, não há sorologia disponível comercialmente no Brasil para a detecção de anticorpos contra Zika vírus. Atualmente, só há disponibilidade para a realização de isolamento viral e RT-PCR, restrito aos laboratórios de referência do Ministério da Saúde

 

JN: Quais são as medidas de prevenção mais conhecidas?

F.V.: As medidas de prevenção são as mesmas adotadas para a dengue, tendo em vista que a principal forma de transmissão do Zika vírus, da dengue e Chikungunya é através da picada do mosquito Aedes aegypti. A principal forma de prevenção é eliminar todos os possíveis focos e reservatórios de água que podem servir para a proliferação do mosquito, colocar telas em janelas, cobrir completamente os reservatórios de água, usar roupas que evitem, ao máximo, a exposição da pele ao vetor e fazer uso de repelentes.

 

JN: Qual é a diferença entre dengue, chikungunya e Zika vírus?

F.V.: A dengue é uma doença bastante conhecida em nosso meio, e tem como principais manifestações a febre alta, dores de cabeça, dores musculares intensas, prostração e sensação de dor atrás dos olhos (dor retro-orbitária), rash cutâneo pruriginoso e dores articulares. Outras manifestações que podem ocorrer são náuseas, vômitos, diarréia, dor abdominal, dentre outras. Pode cursar com manifestações hemorrágicas que variam desde petéquias e pequenos sangramentos no nariz e gengiva até hemorragias graves (ex.: no trato gastrointestinal, cérebro, pulmão) que podem levar o paciente ao óbito. Nos casos mais graves, além das manifestações hemorrágicas o paciente pode evoluir com acúmulo de líquido em cavidades podendo resultar, por exemplo, em ascite ( acúmulo de líquido no abdômen) e derrame pleural (acúmulo de líquido na pleura do pulmão). Uma característica dos exames laboratoriais que podem estar presentes e ajudam na diferenciação de outras doenças é a hemoconcentração, plaquetas muito baixas e hipoalbuminemia.

A Chikungunya também cursa com febre alta, dor de cabeça, rash cutâneo pruriginoso e dores musculares, porém o que mais a caracteriza são as dores articulares intensas, principalmente em pequenas articulações de mãos e pés associado ou não a inchaço. O comprometimento articular pode persistir por meses. Não costuma cursar com manifestações hemorrágicas, nem hemoconcentração ou plaquetas baixas. Risco de óbito é raro.

A infecção pelo Zika vírus costuma ser leve em sua grande maioria e caracteriza-se por febre baixa, rash cutâneo pruriginoso, vermelhidão nos olhos, inchaço pelo corpo, podendo ocorrer ainda dores musculares, dores articulares e dor retro-orbitária (sensação de dor atrás dos olhos). Não cursa com manifestações hemorrágicas.

 

JN: O Aedes aegypti pode transmitir mais de uma doença ao mesmo tempo?

F.V.: Existem relato de 2 casos em literatura de infecção simultânea de dengue e Zika vírus em New Caledonia em 2014, e alguns relatos de casos de coinfecção de dengue e Chikungunya.

 

JN: Para finalizar, que medidas os médicos estão tomando para não errarem no diagnóstico? Existe algum exame específico para distinguir os sintomas da Dengue de outras doenças?

F.V.: Toda vez em que houver suspeita de infecção por Zika vírus ou até mesmo Chikungunya, a investigação e manejo clínico para dengue deve ser obrigatória. Mais importante do que saber qual é o agente causador da infecção, é a conduta terapêutica que deve ser adotada o mais precoce possível. Hidratação vigorosa, conhecimento da classificação clínica, rastreamento dos sinais de alarme da dengue, internação precoce dos casos graves e evitar uso de medicamentos que possam provocar risco de sangramentos são algumas das principais medidas para evitar o óbito. Das três doenças, a dengue ainda é a que mais tem o potencial de matar. Rotineiramente são realizados para diagnóstico de dengue os métodos sorológicos e, em algumas situações e serviços de saúde, o isolamento viral para saber o subtipo (DEN1, DEN2, DEN3 ou DEN4), NS1 e RT-PCR, sendo este último geralmente reservado para investigação de óbitos. A Chikungunya pode ser identificada através de exames sorológicos, isolamento viral e RT-PCR por laboratórios de referência do Ministério da Saúde. Quanto ao diagnóstico laboratorial do Zika vírus, no momento está disponível no Brasil apenas o isolamento viral e o RT-PCR, não havendo disponibilidade de exames sorológicos no momento. Esses exames para investigação de Zika vírus também são realizados por laboratórios de referência do Ministério da Saúde.

 

LUCI JUDICE YIZIMA

LUCI JUDICE YIZIMA

Jornalista e Fotógrafa
lucijornalismo@hotmail.com
LUCI JUDICE YIZIMA

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    Gestante se previne como pode contra o mosquito Aedes aegypti

    A nikkei Katia Cristina Ito, de 37 anos de idade, está com 23 semanas de gestação, se previne como pode contra o  mosquito Aedes aegypti. Apesar de morar em um bairro que não é considerado foco do mosquito, ela se queixa porém que a empresa onde trabalha está localizada ao lado de um Ferro Velho, onde provavelmente seja um foco em potencial do mosquito. Sua preocupação é constante, onde o perigo mora ao lado.

    Katia Ito fala a reportagem do Jornal Nippak as precauções que tem tomado para se manter longe do mosquito Aedes aegypti. “Estou andando com repelente na bolsa, colocando os repelentes elétrico no trabalho, e sempre atenta se aparece algum mosquito”, diz. “Infelizmente os meus vizinhos de trabalho, onde passo a maior parte do tempo é um ferro velho e uma escola onde percebemos grandes chances da propagação do mosquito”, comenta preocupada a gestante.

    De acordo com Ito, sua maior preocupação são os sintomas do Zica Vírus, que podem ser confundidos com um resfriado como febre, dor no corpo (juntas), coceira, dor de cabeça. Segundo ela os cuidados são constantes, com exames períódicos e evitar locais com riscos. “Todo cuidado é pouco, estou sempre alerta para não afetar o bêbe (Microcefalia)”, finaliza Katia.

     

     

     

     

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