SHIGUEYUKI YOSHIKUNI: ÚLTIMO DOS SAMURAIS

 

Quem se propõe a ler a obra “Japão – Passado e Presente”, de José Yamashiro, ficará abismado, por certo, das constantes lutas e batalhas que os clãs japoneses empenhavam-se entre si. Qualquer pequeno desentendimento era motivo de guerra. Houve até um período denominado Sengoku Jidai – era das guerras civis no Japão (1467 -1568).

Desde o célebre caso dos 47 Samurais em 1702, passando pela guerra contra a Rússia (1905), contra a China. até o segundo conflito mundial – só para destacar alguns incidentes mais famosos – o espírito belicoso esteve sempre em evidência.

Mas, após a experiência dolorosa da bomba atômica, o ânimo beligerante arrefeceu bastante. O desejo de paz predominou. Nada de criar situações que possibilite quebrar a harmonia reinante. Assim, por exemplo, o partido situacionista – com pequenas interrupções – domina o Japão há meio século.  Se há oposição, é bem tímida a atuação, sem radicalismo.

O mesmo podemos dizer quanto a maneira de agir dos nikkeys no Brasil. Estão impregnados desse pensamento pacifista.  Melhor votar em FHC, afirmam hoje.  Assim também com Collor, no passado. Há exceções? Poucas, mas há, como em todas as regras.

Uma das exceções, sem sombra de dúvida, é o deputado federal pelo PT, Luís Gushiken. Várias vezes reeleito, sempre pelo partido oposicionista.  Líder bancário de grande projeção. Poucos nikkeys sufragaram seu nome. É até encarado com reserva pelos membros da comunidade nikkey por pertencer ao PT e andar barbudo.

Não o conhecemos pessoalmente. Mas acompanhamos sua trajetória através da imprensa. Única vez que o vimos, distribuía, solitário, propaganda de sua candidatura, próximo ao metrô.

O que é pesaroso é saber que Gushiken não é candidato na próxima eleição. Deixa a carreira política, pois afirma não poder fazer da política uma profissão. Ou talvez por desilusão à política: constatou que como na figura mitológica, cada vez que se corta uma cabeça da corrupção, aparecem no lugar mais outras duas. No momento, chefia a campanha presidencial do Lula.

Quem acompanhou sua atuação em dezenas de acontecimentos envolvendo a corrupção, como no escândalo Collor,, sabe que Gushiken, pela sua coragem, será dificilmente substituído.

Principalmente, pela tendência dos políticos nikkeys de sempre apoiarem os que estão no poder.

Pode-se enganar, mas tudo leva a crer que este é o último dos samurais.

 

(Artigo publicado no meu livro Primícias de um Insensato, de 1999). 

 

 

 

Shigueyuki Yoshikuni

 jornalista e reside em Lins, também colunista do jornal Correio de Lins, colaborador do Jornal da Colônia de Araçatuba e do Jornal das Nações de Àguas de Prata, e diretor de comunicação do Bunkyo de Lins.

 

 

 

 

 

 

 

 

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