SHINDO RENMEI: TCC busca explicar atuação de associações nacionalistas japonesas no Brasil

Depois de ganhar as páginas de livros de autores consagrados como o jornalista Jorge Okubaro (“O Súdito” – Banzai! Massateru!), e Fernando Morais (“Corações Sujos”), os confrontos entre partidários da vitória e da derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial começam a despertar interesse cada vez maior também no meio acadêmico. “Como explicar as associações ultranacionalistas japonesas no Brasil no pós Segunda Guerra Mundial? O caso Shindo Renmei” foi o título de dissertação de pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais da jornalista Danielle Yura na Universidade Federal do ABC.

 

TCC busca explicar atuação de associações nacionalista japoneses no Brasil. Foto: Aldo Shiguti

TCC busca explicar atuação de associações nacionalista japoneses no Brasil. Foto: Aldo Shiguti

Para seu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), que teve como orientadora a professora Adriana Capuano de Oliveira, Danielle pesquisou diferentes momentos vividos pelos imigrantes japoneses no Brasil: desde a restauração da Era Meiji (a partir de 1868) até a chegada do Kasato Maru no porto de Santos, passando pelas dificuldades de adaptação dos pioneiros em território brasileiro.
A ideia foi conhecer a maneira de pensar implantada pelo governo Meiji, cujos súditos mantiveram suas convicções no Brasil. “Procurei fazer um resgate da história, tornando o trabalho o mais abrangente possível para tentar entender o que desencadeou tudo isso”, explica ela.

“Radicada” na capital paulista há cerca de seis anos – nasceu em Mogi das Cruzes – Danielle lembra que o interesse pelo tema surgiu durante o curso de Jornalismo, em 2006, enquanto colhia material para uma revista em comemoração Centenário da Imigração Japonesa no Brasil. Numa dessas entrevistas, conheceu Kazuhiro Mori, filho de japoneses da província de Kochi e ex-vereador de Suzano (SP).

“O pai e o tio dele foram assassinados em Bastos pela Shindo Renmei”, conta Danielle, que trabalha atualmente no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo – IFSP – uma autarquia federal de ensino.

 

A jornalista Danielle Yura mostra seu sobrenome tatuado no braço: “Ficou um buraco na história”. Foto: Aldo Shiguti

A jornalista Danielle Yura mostra seu sobrenome tatuado no braço: “Ficou um buraco na história”. Foto: Aldo Shiguti

 

Tabu – “Kazuhiro Mori apresenta uma postura cética em relação ao movimento vitorista-derrotista. Para ele, essas associações não estavam ligadas ao culto do imperador. Eram apenas homens movidos pelo dinheiro. Já os milhares de súditos se deixaram levar pela ignorância. Essa é a visão de um nissei que diz nunca ter sofrido dsicrimanação por ser descendente de japoneses”, escreve Danielle, que também entrevistou o escritor Jorge Okubaro e o produtor Mario Jun Okuhara, idealizador do Projeto Abrangências e um dos responsáveis por trazer à tona um assunto até então considerado um “tabu” dentro da comunidade nipo-brasileira.

E Danielle sentiu essa dificuldade na pele. “Até então, nunca tinha ouvido falar sbre Shindo Renmei. Hoje o tema é mais abordado e as pessoas falam mais abertamente, inclusive com opiniões formadas”, disse, lembrando que, em 2006, “o Mori não me deixou fotografá-lo”. “Com certeza, reflexo do tabu com que o assunto era tratado”, conta Danielle, acrescentando que teve acesso aos inquéritos policiais da época. “Tinha uns cinco ou seis volumes. Li página por página”, destaca ela que constatou, por exemplo, “que cerca de 800 imigrantes foram presos injustamente”. “Procurei mostrar todas as partes, sem ocultar nenhum detalhe”, revela. E descobriu também, que, “ao contrário do que a polícia, a imprensa e algumas pessoas retratam, a imensa maioria dos membros das associações japonesas de cartáter ultranacionalista no Brasil, não era assassina, sequer faziam mal aos brasileiros, aos demais integrantes e aos próprios japoneses. Apenas acreditavam na vitória do Japão”.

 

Danielle Yura destaca importância de resgatar a história. Foto: Aldo Shiguti

Danielle Yura destaca importância de resgatar a história. Foto: Aldo Shiguti

 

Para ela, o mais importante é resgatar um capítulo da história da imigração ainda um tanto quanto “nebuloso”. “Ficou um buraco na história”, diz Danielle, explicando que “a segunda geração, por conta das dificuldades enfrentadas pelos japoneses durante a Guerra, por muito tempo não quiseram ser vinculados à comunidade japonesa e por isso evitavam tocar na ferida. “Houve uma espécie de negação de suas origens. Já a terceira geração não enfrentou esse tipo de problema. E até por isso fala sobre esse assunto com mais facilidade”, explica.

ALDO SHIGUTI

ALDO SHIGUTI

Redator-chefe
ashiguti@uol.com.br
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