SILVIO SANO > NIPÔNICA: BALEIA AZUL

Hiroaki acabara de sair do banho após dia extenuante. Colocou roupa leve com um sobretudo trazido do Japão e desceu ao térreo onde Mário, assistindo à TV, o aguardava para jantarem.

Ao descer, viu que Mário não se movera, concentrado que estava em alguma notícia do momento e que a expressão dele não era agradável.

Aproximou-se para se inteirar. A reportagem era sobre a “Baleia Azul” mostrando jovens mutilados em consequência desse jogo virtual e citando um caso fatal.

— Ficar sabendo disso, hoje, na empresa — Hiro iniciou o diálogo — Horrível!

— Pois é. A preocupação agora é sobre até onde isso poderá chegar…

— Pessoal falar em 50 desafios com último para suicidar… — Hiro quis mostrar que estava a par.

— Não, Hiro. Não falo do jogo em si, mas da possibilidade de isso se alastrar por todo o país — esclareceu.

— Ah! Sim. Parece que surgir na Rússia — quis mostrar de novo.

— É. A reportagem também falou sobre isso… mas, vamos comer? — lembrou, Mário.

E se dirigiram à copa onde costumam fazer as refeições do dia-a-dia.

— Desde que sair da empresa, no metrô, vir pensando sobre isso — recomeçou o japonês — … então, lembrar de Japão.

Com o prato na mão, Mário olhou-o.

— Por que, Hiro? Lá também ocorreu?

Nom! — respondeu ele enquanto se servia do feijão — Bom, verdade, não ouvir falar ainda, mas pensar… em Japão mais fácil ocorrer.

Mário balançou a cabeça:

— É… o Japão é o país dos jogos virt… — interrompeu-se ao achar que se expressara mal — Opa, Hiro! Não quis dizer desses jogos… mas… de todos, né!

— Entendi, Mário. Não se preocupar — tranquilizou-o — lembrar de Japão porque, diferente daqui, não ter calor humano… que eu adorar.

Mário franziu o cenho.

— Em Japão não ter “jogar conversa fora” — Hiro falou com firmeza — pais não conversar com filhos como em Brasil… e fora de casa japonês só trabalhar e trabalhar…

E prosseguiu:

— Por isso, em Japão, fenômeno Hikikomori… quando jovens e adultos trancar muito tempo nos quartos para fugir da sociedade. Ficar só lendo livros, assistindo TV e também internet!! Mais de duzentos mil praticar! Por isso preocupado.

— Entendi — Mário respondeu.

— Sempre… achar falta de diálogo e… trabalhar e trabalhar… razões de suicídios em Japão! Lá, quando morre ídolo, muitos suicídios!… porque igual como perder única razão para viver!

Mário estava atônito.

— Mas em Brasil não entender por quê.  Ter diálogo entre pais e filhos… e não trabalhar tanto.

— Opa! Calma lá! — Mário fingiu-se ofendido — Também não é bem assim. Não trabalhar, tudo bem… rsrs — fez breve pausa — Agora, diálogo, Hiro? Bem… com a chegada das redes sociais e esses jogos virtuais, acho que não tem havido não.

— Não?! — foi a vez de Hiro estranhar.

— Quer saber? — Mário olhou firme para o japonês — Nisso te dou razão! Sem ser especialista, pra mim, tudo tem a ver com falta de diálogo, mas do verdadeiro!

Humn!!… — saiu meio rouco da boca de Hiro concordando… à moda japonesa.

 

Diálogo franco

Transparente, solidário

Natural antídoto

 

 

SILVIO SANO

SILVIO SANO

é arquiteto, jornalista e escritor.

E-mail: silvio.sano@yahoo.com
www.nikkeypedia.org.br/index.php/Silvio_Sano
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