SILVIO SANO > NIPÔNICA: Elefantes Brancos?

Após assistir a um noticiário na TV, Hiroaki foi até o quintal onde Mário estava regando a horta.

— Bonitos estádios, os construídos para Copa do Mundo no Brasil, né, Mário? — puxou assunto.

Mário não entendeu bem esse início de conversa, sorriu para Hiro e seguiu regando.

— Na época, construir vários, né… por todo Brasil — prosseguiu o japonês.

Mário deu uma paradinha, esfregou a testa com o costado da mão direita, como se estivesse suado e lhe respondeu, mas um tanto irônico:

— É verdade, Hiro… até onde Judas bateu com as botas! — e o olhou já adivinhando a reação.

Estava correto. Hiro afastou a cabeça, com o semblante meio espantado.

— Brincadeirinha, Hiro. É apenas uma expressão que usamos para indicar lugar bem distante… rsrs.

— Entendi. Como aquele de Manaus, né — e Hiro quis mostrar conhecimento — Bom como projeto integração nacional…

— Só que não foi bem assim… rsrs — Mário interrompeu-o — Mas por que esse papo agora? A Copa foi em 2014.

— Saber disso, Mário. É que jornal na TV trazer matéria sobre estádio Pantanal com notícia estranha — justificou.

— Como assim? Já se passaram mais de três anos desde que foram construídos… e esse, naquela região, é um dos que quis dizer não ser bem assim — fez pequena pausa — Por acaso, era sobre a situação degradante em que se encontra? — questionou-o.

Nom! Reportagem mostrar que dez camarotes transformar em salas de aula para trezentos alunos do Ensino Fundamental de Cuiabá. Estranho, né?

— Como?! — Mário também estranhou.

Hiro prosseguiu:

— Reportagem falar que estádio custou R$ 700 milhões e desde fim da Copa média de público não passar de mil pessoas… e que esse dinheiro dar para construir 175 escolas. Que coisa. Né, Mário!

— Um absurdo! — Mário concordou.

— No Brasil não fazer pesquisa de mercado antes de construir algo grandão assim? — indagou, Hiro.

— Caro Hiro, o que nossos políticos fazem é, em conluio com grandes empresas, pesquisar sobre como meter a mão no nosso dinheiro, isso sim — respondeu, revoltado!

— Como ser possível isso com… dinheiro público? — perguntou, Hiro.

— Com propinas, Hiro… que superfaturam nossas obras! O pior é que ainda fazem elefantes brancos de cunhos populistas… e nós engolimos! — Mário até se alterou.

— Ah! Por isso, mesmo noticiário trazer matéria sobre lista de políticos graúdos citados por empresários e executivos… depois, sobre  estado horrível dos hospitais no Rio e…

— É isso aí, Hiro! — interrompeu-o — Tudo interligado! É o retrato do nosso país!

— Agora, o que ser elefante branco, Mário?

— Ah! — Mário até se acalmou e resolveu brincar — é o tal do monstrengo… caro… em lugar errado.

Hiro ficou pensativo e respondeu em voz baixa como se refletisse:

— Entendi. Okashiine (Muito estranho, né)… trezentos alunos num estádio para 40 mil pessoas porque não ter escola… saúde do país ir mal… segurança pública também…

Mário olhou-o de soslaio e voltou a regar sua pequena horta.

 

Elefantes brancos?!

Claro! Com dinheiro público!

E do pão e circo!

 

SILVIO SANO

SILVIO SANO

é arquiteto, jornalista e escritor.

E-mail: silvio.sano@yahoo.com
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