SILVIO SANO > NIPÔNICA: GREVE JUSTA, CLARA E… INTELIGENTE

— Cara, tá me quebrando um galhão! — bufando, César entrou no carro do amigo — Essa greve parece que parou o mundo! — e fechou a porta.

— Nem tanto, César — amenizou Kenji — tanto que nem todas as linhas de ônibus pararam e o Metrô trabalha de forma parcial. A CPTM não parou.

César franziu o cenho, até pela forma despreocupada de falar do amigo.

— É verdade. Estou acompanhando pelo rádio — prosseguiu Kenji — e, pelas informações, a greve não está tendo adesão plena por parte dos funcionários dessas empresas, o mesmo ocorrendo em outros Estados.

— Pra dizer a verdade, nem sei direito a razão dela — César falou, meio envergonhado.

Kenji sorriu pela sinceridade do amigo:

— Essa deve ser a razão. Nem todos sabem. Ao menos nessa rádio, todos os entrevistados não souberam explica-la.

— E você sabe, Kenji? — interrompeu-o.

— Sim!… — fez uma pausa — acho que sei… rsrs — deu um leve sorriso — Não há pauta unificada, mas basicamente é contra as reformas da Previdência. A confusão se dá porque os sindicatos, aproveitando o dia, fazem as suas e daí vira meia greve, só atrapalhando a vida dos trabalhadores que querem trabalhar.

— Não tem aí o lance do “Fora Temer!”? — arriscou César, para não mostrar alienação.

— Até tem, César. Os extremistas… de esquerda e de direita, não perderiam a oportunidade, né.

— Tudo bem, mas e nosso direito de ir e vir… e de trabalhar? — César, agora, falou de boca cheia.

— Pois é, cara. Por isso acho que essas lideranças grevistas não sabem fazê-las de forma objetiva, proveitosa mesmo — Kenji falou com certa firmeza.

— Como assim, Kenji?

— Todos têm direito à greve, mas têm de fazê-la de forma justa e convincente para buscarem adesão plena e poder reivindicatório real…

César o interrompeu apenas com um menear de cabeça na direção dele.

Kenji, prosseguiu:

— Um economista americano, Willian Ouchi, pesquisando sobre trabalho no Japão, contou em seu livro, Teoria Z, uma série de experiências que constatou naquele país, inclusive que considerou inviáveis à economia dos países ocidentais — César mostrava-se atento e Kenji prosseguia — Como uma greve de trabalhadores em uma empresa japonesa. O sindicato informou uma semana antes que a faria e no dia marcado, todos os trabalhadores pararam e se aglomeraram no pátio à frente da sede com faixas, panfletos e gritos sobre suas reivindicações. Terminada a greve, todos, limparam as sujeiras do chão e no dia seguinte trabalharam em dobro para recuperar a produção perdida no dia anterior.

— Verdade?! — falou César, abismado.

— Pois é. Mostraram que tinham o poder de parar, mas não o intuito de prejudicar a empresa que lhes dá o ganha pão — e Kenji, concluiu — nossos sindicatos deveriam agir, sim, mas sem tirar os direitos dos outros cidadãos… até para também ganhar o apoio deles às suas reivindicações.

— É verdade — concordou, César — Por exemplo, se os metroviários propusessem parar os trens apenas fora das horas de picos, talvez até ganhassem o apoio da população, né.

Ambos riram.

 

Tenho um pedido

É justo e merecido

Se não der eu paro

 

SILVIO SANO

SILVIO SANO

é arquiteto, jornalista e escritor.

E-mail: silvio.sano@yahoo.com
www.nikkeypedia.org.br/index.php/Silvio_Sano
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