SILVIO SANO > NIPÔNICA: HIKIKOMORI

Na edição anterior deste JN, chamou-me à atenção a reportagem sobre o fenômeno comportamental no Japão, denominado Hikikomori, da auto exclusão social por parte de jovens (15 a 39 anos), ao se trancarem literalmente e por longo tempo, em seus quartos, afastando-se da sociedade. Não do mundo, porque ficam trancados, mas lendo livros, assistindo à TV e, recentemente, conectados à internet! Fenômeno, porque cerca de 230 mil jovens o praticam!

Retomo o assunto devido à citação do isolamento social com uso da internet que tem a ver com uma questão que já começa a preocupar também o lado de cá. Basta entrar em um vagão do Metrô para observarmos a postura da grande maioria, ligada aos seus smartphones.

Ainda prezo muito o tal do “cada macaco no seu galho”, além de na matéria haver a citação de que o fenômeno foi reconhecido na década de 90 e ainda hoje é um mistério aos médicos e especialistas que o estudam. Mas como, também, “de médico e louco todo mundo tem um pouco”… vou arriscar umas pitadas no assunto pela visão deste leigo de formação ocidental.

Começo por minha primeira ida àquele país, em 1975, como bolsista-estagiário pela Província de Mie. Como falava muito pouco o japonês, para compensar, incuti em mim uma enorme curiosidade pela cultura ancestral que me transformou em atento observador… ocidental! Assim, o primeiro impacto foi daquilo que conhecemos daquele país, como da sociedade das aparências, e que considero como principal razão ao fenômeno em questão!

Logo no primeiro contato com meu responsável no país, ainda dentro do carro que me levaria à futura morada, ao lhe responder em voz baixa devido à minha dificuldade com a língua, somada à minha juventude, fui logo repreendido por ele para que respondesse com mais firmeza porque da forma como o fiz dava a impressão de ter feito algo indevido. Concordei com a explicação, mas não com a forma, por ser primeiro contato e por nem me dar chance de justificar!

Só isso, das aparências, já me bastaria para entender e, talvez, até para resolver o tal fenômeno. Mas quem sou eu?… rs. Então, prossigo.

Na matéria, os especialistas mesmos citam algumas razões com as quais concordo, dentre elas o bullying nas escolas, e sobre o qual também já abordei aqui. A diferença é que, lá, os estudantes o praticam até aos que não acompanham os estudos… em prol do nome da escola… à sociedade das aparências! Abrange também a discriminação social, como no caso de um amigo de meu filho que após ter se mudado de etapa escolar parou de se relacionar com outro por ser pobre! Antes não era?!

E para concluir, premido pelo espaço da Nipônica, só uma sociedade das aparências como aquela pode justificar mercado de trabalho tão competitivo como o daquele país… e cujos especialistas, sim, podem explicar os consequentes níveis altos de stress que apresentam, que somados à introspecção natural, falta de comunicação pessoal e do diálogo familiar, justificando, a este observador ocidental, que esse fenômeno ocorrer no Japão não soa estranho.

 

A um ser social

Não combina se isolar

Vamos conversar?

SILVIO SANO

SILVIO SANO

é arquiteto, jornalista e escritor.

E-mail: silvio.sano@yahoo.com
www.nikkeypedia.org.br/index.php/Silvio_Sano
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