SILVIO SANO > NIPÔNICA: Isso, sim, é Comprovante de Residência!

Arê?! Korewa okashiine… (Opa?! Isso é estranho…)

Hiroaki acabara de chegar à sua casa, vindo do trabalho, uma empresa multinacional. Hiro, como é chamado, veio ao Brasil como aventureiro, no risco, por gostar muito de futebol e quando criança, e mesmo adulto, assistia a um desenho animado japonês chamado Capitão Tsubasa, cujo protagonista era um jogador japonês que sonhava em um dia jogar no Brasil.

Inspirado nele resolveu também realizar seu sonho. Só que não tinha muito recurso para vir ao Brasil e seus pais não aprovaram essa forma de aventura. Então, apenas com o dinheiro da passagem e um recurso para alguns dias, resolveu se arriscar contando que, por sua formação em jornalismo, além de bom fotógrafo, logo acharia trabalho. Até que o conseguiu, mas não bem com aquela remuneração que esperava e, por isso, teve de economizar também na morada, o que acabou levando-o à casa de Mário, que tinha um quarto disponível para alugar.

Mário não era descendente de japoneses, uma das condições que Hiro se impôs para, ao menos, poder praticar a língua portuguesa diária e forçosamente, apesar de, ainda no Japão, ter se preparado muito.

— Oi, Hiro. Já de volta? — Mário, que o vira chegar, o abordou — E pegou a correspondência pra mim? Obrigado.

Mas antes de lhe passar os envelopes, Hiro mostrou a Mário o que o tinha intrigado.

— Acho que entregaram este, errado, nê… endereço tá certo, mas não tem número.

— Ah! Sim. Esse cara morou na casa ao lado, mas já se mudou há muito tempo daqui — Mário explicou — Acho que há mais de dois anos… só que, de vez em quando, ainda vem correspondência dele pra cá — e, para espanto de Hiro, rasgou o envelope.

Arê?! Péra aí, Mário-san! Você rasgou o envelope! — Hiro advertiu — Não seria melhor devolver pro Correio?

— Não se preocupe, Hiro. Estamos no Brasil e o remetente é uma entidade filantrópica que envia esses pedidos de ajuda mecanicamente… para todos — justificou — Aliás, olha o meu aqui!

A sooka… (Entendi…). Não tinha reparado no seu… igual.

— No Japão esse tipo de engano não acontece, né, Hiro? — perguntou-lhe enquanto rasgava, agora, o seu próprio… para novo espanto de Hiro.

— É verdade, Mário. No Japão, quando se muda de casa tem que comunicar à prefeitura (sub-prefeitura) atual — explicou, embasbacado com a atitude de Mário — E também à nova, se for em outro bairro ou cidade. Daí, a prefeitura comunica automaticamente a mudança ao Correio.

— Nossa! Que da hora! — expressou, Mário, efusivamente.

Hiro franziu o cenho mostrando não ter entendido o que Mário acabara de dizer.

— Estranha não, Hiro… quis dizer… que bacana… por ter gostado disso que me contou sobre seu país — explicou-se, Mário.

— Ah! E se chega nova carta para aquele que se mudou, o Correio entrega ao novo endereço com recomendação para que comunique ao remetente essa alteração — Hiro mostrou-se orgulhoso e completou:.

— Que da hora… né, Mário!

— Realmente, caro Hiro!

Ambos riram e entraram em casa.

 

Não burocracia

Muito fácil implantar

Com boa vontade!

 

SILVIO SANO

SILVIO SANO

é arquiteto, jornalista e escritor.

E-mail: silvio.sano@yahoo.com
www.nikkeypedia.org.br/index.php/Silvio_Sano
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