SILVIO SANO > NIPÔNICA: Lixo, no Brasil? Ai… ai… ai…

Mário estava na sala assistindo àquele programa sobre violência urbana, como se já aguardando pela chegada de Hiroaki, Devido ao trabalho, não tem hora para chegar. Às vezes, chega até mesmo depois do noticiário que tanto aprecia. Por isso, Mário já se determinou que o aguardaria só até certo momento para jantarem juntos.

Como Hiroaki tem própria chave da casa, Mário não necessita se preocupar em abrir a porta para ele, mas como estranhou que estava demorando para entrar, mesmo já estando em frente à porta, além de parecer estar resmungando, não aguentou e foi até a porta e a abriu. O japonês já estava prestes a fazê-lo… com sapatos na mão e expressão de raiva.

— Ué, Hiro?! O que houve? E por quê está com os sapatos na mão?

— Aaa… caralh…! Muito lixo lá em cima, na calçada… sujeira, lama, nojento! — respondeu Hiro, muito revoltado.

— Puxa! Cê tá brabo mesmo, héim! Nunca o ouvi falar um palavrão! — Mário se admirou — Pra estar assim é porque deve ter mesmo muito lixo, lá. E acabou de chover!

— Então…! Na calçada de uma avenida! Não acreditar!

— Entre logo, então, e vá tomar seu banho primeiro — Mário apressou-o a entrar.

Com os sapatos na mão, Hiroaki entrou e os levou até o tanque, onde resolveu já lavá-los e deixa-los a secar num cantinho coberto, do lado de fora da casa. Depois, foi tomar seu banho.

Mário resolveu espera-lo para jantarem juntos.

— Caramba, Hiro… tinha tanto lixo assim? — agora, na mesa de jantar, televisão ligada, Mário perguntava a Hiroaki — E aquela calçada é larga, héim!

— Então! Como poder? Calçada inteira! — Hiroaki não se conformava — E na avenida! Não ter como! Ter de pisar em cima!

— No Japão isso nunca ocorreria, né, Hiro?

— Nunca! — respondeu de pronto — autor levar multa grande!

— É… é preciso multar aqui também quem faz esse tipo de coisa — Mário concordou.

— Problema é que aqui não ter coleta pública reciclável

— E acha que adiantaria… aqui, Hiro — Mário sorriu-lhe.

— Humn… Verdade. Acho que não! — Hiro correspondeu — Outro dia ver homem chutar saco de lixo na calçada que então rasgar e espalhar no chão.

— Viu? Mesmo esse monte de hoje. Se ainda estivesse bem juntado e ninguém fizesse esse tipo de coisa, você não estaria reclamando agora. Não é?

Verudade! Precisar mudar cabeça de brasileiro.

— Concordo. Até pra fazer lixo o brasileiro é ruim — Mário resolveu acrescentar — porque não mede a quantidade que come no prato e joga a metade no lixo…

Verudade! Mottainai! (desperdício!). Japonês sempre deixar prato limpo!

— Verdade! Outro dia, li que nosso lixo é um dos mais ricos para fazer compostagem, adubo… e que o do Japão não serve para isso… — Mário soltou uma gargalhada.

Verudade?! — Hiro acompanhou-o na gargalhada.

— Pois é, Hiro. Agora que está mais calmo, só posso te pedir desculpa pelo que fazem nossos brasileiros…

— Quê isso, Mário-san. Você ser prova que nem todos são assim. Tocar aqui! — e deu-lhe a mão.

 

O grande problema

Não está no lixo espalhado

Mas na mente lixo.

 

SILVIO SANO

SILVIO SANO

é arquiteto, jornalista e escritor.

E-mail: silvio.sano@yahoo.com
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