SILVIO SANO > NIPÔNICA: Márcia Miyasaki, escritora nikkei de contos… de terror!

O nikkei é conhecido por sua introspecção, aspecto que já debati aqui e até elogiei o boom karaokê por lhe ter proporcionado a oportunidade de se expor em público mesmo com a adrenalina a mil. Ao menos foi o que, certa vez, um frequentador desses concursos me confidenciou: “toda vez, antes de subir ao palco, fico nervosíssimo, mas em compensação, depois, sinto-me tão bem que vale a pena vir sempre”. Isso, quando já fazia doze anos que participava dos mesmos.

Sei que é verdade porque também sou nikkei, convivo com muitos da comunidade e ao coordenar um curso de oratória durante três anos constatei que dentre os alunos, dos que eram nikkei, a maioria justificava a presença não para uso profissional ou social, mas apenas para superar a tal inibição.

E existe também outro aspecto relativo inerente no nikkei que é o do não contar vantagem ou nem mesmo revelar a amigos sobre alguma habilidade que tenha. Ocorreu em meu círculo de amizades. Só depois de mais de uma dezena de anos de convívio vim saber que um deles, um nikkei, era maquetista profissional de carros F1 e… de nível internacional!, com encomendas da Europa e EUA! Da mesma forma fiquei sabendo de uma amiga que confeccionava imitações perfeitas de pratos de comidas, daquelas que ficam expostas em vitrines de restaurantes, muito comuns no Japão. Etc.

“Quem mais sabia disso?”, pensei. Então, resolvi sugerir aos jornais da comunidade para que fizessem matérias sobre eles… e continuo, quando fico sabendo de algum nikkei habilidoso ou diferenciado… ou eu mesmo as faço.

Como é o caso recente da escritora Márcia Miyazaki. Mas nesse caso com um porém porque tomei conhecimento de que era, apenas após seu falecimento. Na verdade, não a conhecia pessoalmente mesmo quando entre nós, apesar de amigo desde muito antes de sua mãe, Ayako Miyasaki, pelo karaokê, aliás, excelente cantora do estilo enka.

Ela sabia que eu era escritor, mas nunca me contara que sua filha também era. E soube de seu óbito de forma indireta, dois meses atrás, via Aliança Cultural Brasil-Japão, onde fora uma das professoras de língua japonesa. Ainda assim, apesar do sobrenome não associara uma a outra. Uma amiga comum me fez a associação.

Daí, ao conversar com ela, soube que Márcia, escrevia contos e poemas e que tinha como especialidade contos de… terror! Uma nikkei? De terror?! Fiquei interessado. Foi quando, com a “ficha caindo” para ela, convidou-me para o lançamento de um livro póstumo à filha, publicado pela editora Zinescritos (2016) com apoio de amigos e colegas escritores com os quais compartilhara antologias pela Andross Editora. Não pude comparecer, mas lhe pedi para que me reservasse um exemplar.

Recebi-o semana passada. Não escreveria a respeito apenas pelo fato de ser filha de uma amiga. E ao lê-lo fiquei estupefato com sua imaginação, criatividade e sutileza principalmente nos contos, o que me remeteu aos exemplos “nikkei”, acima, que por suas personalidades introspectivas, demoramos muito a saber sobre seus potenciais. Às vezes, tarde demais…

Né, não?!

 

Há que renascer,

Nikkei introspectivo,

Rompendo a casca!

 

SILVIO SANO

SILVIO SANO

é arquiteto, jornalista e escritor.

E-mail: silvio.sano@yahoo.com
www.nikkeypedia.org.br/index.php/Silvio_Sano
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