SILVIO SANO: NIPONICA: O meio faz o homem

 

Por esses dias, assisti a uma reportagem sobre o Japão que me remeteu a uma Nipônica que escrevi há muitos anos, que deu título a uma antologia na qual as condensei e… bem como, a esta, outra vez: O Meio Faz o Homem.

 

 

Naquela, em 1996, contei sobre o bem que o Japão fazia, não apenas financeiramente, aos nipo-brasileiros que para lá se dirigiam, como dekasseguis. Baseado no mau exemplo de um prefeito de São Paulo (Paulo Maluf) que fora flagrado jogando ao chão o papel do sorvete, que acabara de chupar, citei o caso dos brasileiros no Japão, em mesma situação, mas diante de cidades perfeitamente limpas, em que “aprenderam” a guardar esses papéis nos bolsos ou manter garrafas vazias nas mãos até encontrarem lixeiras!

Isso, já seria suficiente para justificar o título, mas fui adiante para buscar a cena de um amigo japonês que viera me visitar no Brasil quando, em certo momento do tour de carro que fazia com ele,em plena AV. Paulista, resolveu abrir a janela para jogar o pacote vazio de cigarros…

— Ei, ei! Que vai fazer? — perguntei-lhe, tentando impedi-lo — Você é japonês!

— Eu sei. Mas estamos no Brasil. Aqui pode! — respondeu-me com um sorriso maroto, indicando que, provavelmente, matava enorme vontade… de toda a vida dele!

Pois bem. A reportagem fazia referência a um escândalo que vinha ocorrendo naquele país, de que os japoneses vinham sendo enganados na questão da alimentação, em hotéis de luxo, restaurantes badalados ou mesmo nas tradicionais lojas de departamento. Suco de laranja feito na hora… de caixinha; camarão, miúdo, vindo das Filipinas; bife preparado com carne processada, com gordura, para ficar mais macio, etc.

Como assim?, perguntaríamos nós, ocidentais, acostumados com a fama de honestidade daquele povo. Pois é, já estou desconfiando que o contexto de meu título logo se perderá no tempo devido à globalização. Como aprenderam tão rápido a usar esses “jeitinhos” para lucrarem? Pegos, os responsáveis até mostraram um pouco do que conhecemos deles, pedindo desculpas… “do fundo do coração!”

Mas agora, quem acredita? O locutor, que completou a matéria informando que a indenização lhes custaria mais de US$ 1 milhão, finalizou ironizando: “Tomara que, pelo menos, o dinheiro não seja falso”.

 

Não é do lugar

Que depende a postura,

Mas da formação

 

 

Silvio Sano

é arquiteto e escritor. E-mail: silviossam@gmail.com

 

 

 

 

 

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