SILVIO SANO > NIPÔNICA: OS RISCOS DO MAL BANALIZAR-SE

Depois de longo e tenebroso inverno resolvi enviar uma carta à seção Leitor da revista VEJA e… a publicaram (edição 2428 – ano 48 – nº 22, 03/6/2015): “Apenas pelo título, talvez o artigo ‘Nunca Banalizar o Mal’ (27 de maio), da escritora Lya Luft, não chamasse muito a atenção à importantíssima advertência contida ali. Digo isso porque, já no meio da leitura, fui remetido a uma imagem, de quase uma década atrás, de crianças, em uma favela do Rio, brincando de futebol com uma cabeça humana encontrada sobre o capô de um carro… se não fosse pelo fato de a violência urbana extrema, naquela região, já ter se tornado banal a elas! Pois é. Imagine, como bem adverte a escritora, isso ocorrendo aos crimes em voga contra o Brasil? Por isso, caríssima Lya, continue sendo ‘repetitiva’ e… escrevendo, escrevendo e escrevendo, sim, sobre esse tema”.

A razão, pois, foi o artigo da escritora Lya Luft da edição anterior. E o trago aqui porque, além de achar pertinente ao momento que o país passa com esse tsunami de revelações de corrupção (mensalão, petrolão, Fifão, Cebeefão, etceterão!), de que já sabíam… ops!… imaginávamos, o meu próprio exemplo, das crianças brincando naturalmente com a cabeça humana remeteu-me ao Japão medieval, mais precisamente a uma cena em que James Clavel, em seu romance Xógun, mostra a realidade do país, na época. Refiro-me à cena em que o daimyo, diante de Blackthorne, capitão do navio holandês naufragado, de repente, corta a cabeça de um vassalo, sem reação nenhuma dos demais… como se aquilo lhes fosse natural… banal. E, provavelmente, o era, na época! Mas eu, apesar de “sangue do mesmo sangue”, fiquei chocado só pela descrição no livro.

Pois é. Quando construí minha casa, em uma vila, há mais de 30 anos, recusei-me a projetar o portão de minha garagem, como é atualmente, inteiramente gradeada e com controle remoto. Na época, fiz um gradil de 1,20m de altura e nos primeiros anos, debruçado sobre ele, conversei muito com meus vizinhos… até bandidos entrarem em minha casa. Hoje, morar em uma casa “enjaulada” tornou-se uma banalidade… quando o correto seria nos indignarmos com a qualidade da segurança pública no país e cobrarmos de nossos governantes. Né, não?!

Por isso a advertência da escritora tem fundamento se a extrapolarmos aos males contra o país, conforme ela refere no artigo, porque a continuarmos indiferentes aos desmandos dos nossos governantes e políticos, como se banais fossem, o país irá à bancarrota… e nós juntos! Felizmente, no caminho do Petrolão surgiu uma pedra, o juiz Sérgio Moro, que, como no Operação Mãos Limpas, na Itália, no qual se inspirou, está fazendo a diferença e pondo fim, exemplarmente, a esses abusos, punindo corruptos e corruptores.

E nos demais caminhos, mesmo que pequeninos? Da bituca de cigarro jogada displicentemente nas ruas; da latinha de bebida, da janela do carro; do lixo nas ruas; do estado das calçadas; das péssimas prestações de serviços públicos… e privados;  etc. , tornando-se coisas banais… por nossas indiferenças?!

 

Postura crítica

Corta o mal pela raiz!

Não seja banal!

 

 

SILVIO SANO

SILVIO SANO

é arquiteto, jornalista e escritor.

E-mail: silvio.sano@yahoo.com
www.nikkeypedia.org.br/index.php/Silvio_Sano
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