SILVIO SANO > NIPÔNICA: Ouvindo rádio… no aparelho

Desde que chegou à casa de Mário, em finais de semana que não tem compromisso Hiro costuma dormir até tarde. Se bem que, mesmo em dias comuns da semana, nunca conseguiu se levantar da cama antes de seu locador.

Assim, sempre teve a mesa pronta ao café da manhã, tudo preparado por Mário que também sempre o aguardava para fazê-lo junto. Como Hiro saía cedo ao trabalho, até dava para espera-lo, o que não ocorria nos finais de semana.

Mas certo sábado, devido a um compromisso no interior e uma carona lhe prometida, Hiro acabou se levantando bem cedo da cama. Ainda assim, não antes de Mário, a quem não tinha avisado do compromisso.

— Opa! Bom dia, Hiro! Vai pra algum lugar? — perguntou-lhe ao vê-lo descendo a escada, afobado.

— Bom dia, Mário-san — respondeu afoito, sem ter feito a higiene matinal e despenteado — desculpe não avisar que sair cedo, hoje.

— Quê isso, Hiro. Deu pra perceber — Mário riu.

— Não! É que combinar com amigo tomar café na estrada — justificou.

— Não tem importância. Essas coisas acontecem mesmo — tranquilizou-o, Mário.

Hiro, que tinha apenas descido para avisá-lo, já até se voltara para subir de novo quando notou algo diferente de sempre. Em vez da TV ligada no noticiário da manhã, Mário escutava rádio enquanto preparava seu desjejum. Por isso interrompeu seu movimento.

Arê?! (Ué?!) Ouvindo rádio? — e olhou ao mesmo — Muito tempo não ouvir rádio assim.

Mário riu e apontou:

— Reparou nele? É bem antigo. Foi de minha mãe. Como ela cuidava bem dele e faço o mesmo, continua funcionando muito bem! — explicou orgulhoso.

— É… TV desligada… rádio diferente, chamar atenção — Hiro falou admirado — nunca ver nada igual.

Mário riu, novamente:

— Ainda mais você que veio do Japão, país dos mais modernos tecnologicamente, né…

— Puxa! Mário ainda ter rádio muito antigo… em bom estado — Hiro até se aproximou para vê-lo melhor.

Mário apagou o fogo que esquentava o leite e acrescentou:

— Ainda o uso por isso… e pra manter mamãe viva na lembrança. Nunca me esqueço de como ela o curtia — fez uma pausa — não deixava meu pai nem chegar perto!… tinha o dele, mas só para ouvir os jogos do Corinthians…

— Boa razão… — Hiro aproveitou para também brincar.

— Ah! É… — Mário riu, lembrando-se do quanto Hiro era corintiano — A razão da minha mãe eram as novelas! Por isso cuidava bem do rádio.

— Novelas?! — Hiro estranhou — Não era melhor assistir na TV?

E Mário riu, novamente.

— É que morávamos no interior e, naquela época, não tinha televisão — Mário fez uma pausa e aproveitou para brincar — por isso tenho seis irmãos! — riu, quase gargalhando.

— Não entender — Hiro franziu o cenho e pendendo a cabeça.

Foi quando Mário também se lembrou do compromisso dele:

— Ih?! Vai logo, Hiro, antes que seu amigo chegue… No caminho entenderá… rs.

Hiro subiu a escada correndo, enquanto Mário, olhando-o, ria.

 

Mário fez opção!

Ouvir rádio quase sempre,

Inda mais da mãe.

 

 

SILVIO SANO

SILVIO SANO

é arquiteto, jornalista e escritor.

E-mail: silvio.sano@yahoo.com
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