SILVIO SANO > NIPÔNICA: PEQUENO BURGUÊS?

— Ih! Olha essa manchete aqui, Mário — levantando a mão que segurava o smartphone, Kazuo girou-a na direção do amigo —  Tá dizendo que o ex-governador do Rio, Sérgio Cabral, aquele que tá preso e é réu em seis projetos da Lava-Jato, comprou R$ 3,3 milhões em diamantes dois meses antes de ser preso! Pode?!

Mário se inclinou para olhá-lo.

— E foi ele também que deu de presente à esposa um brinco no valor de R$ 800 mil num restaurante em Paris. Não foi? — prosseguiu Kazuo.

— Foi. O cara abusou mesmo da farra, héim… e com nosso dinheiro — reforçou, Mário.

— Falando em farra, tem aquela imagem em outro restaurante, também em Paris, dos cinco dançando com guardanapos na cabeça. Lembra, Mário?

— Sim. Um deles é o ex-amigo e empreiteiro Fernando Cavendish que, inclusive, foi quem pagou por aquele brinco. E agora o delata — reforçou, Mário.

Riram, ambos.

— Os caras não sabem nem mentir… — prosseguiu Kazuo — … gastando com extravagâncias que chamam atenção!

— É. Mas esse Cabral exagerou. De tão ganancioso, com tantas provas evidentes contra ele, tão cedo não sairá da prisão. Isso, se sair… — completou Mário.

Kazuo concordou com leve menear de cabeça, olhar de deboche e arrematou:

— Engraçado… a atitude dele me lembra muito a de alguns dos primeiros dekasseguis que retornaram do Japão, ainda no começo do movimento migratório.

Mário franziu o cenho mostrando não ter entendido o que Kazuo queria dizer.

— Bom, não é bem o caso de Cabral que deve ter nascido em berço de ouro, mas não vejo muita diferença não — tentou explicar, a um Mário ainda confuso.

— É que após retornar do Japão recheados de dinheiro, alguns desses  dekasseguis, começaram a comprar casões e carrões no Brasil — ironizou.

— De minha parte não vejo nada de mais nisso se com próprio dinheiro — rebateu Mário.

— Sim. Claro. Só que a maioria deles não tinha nenhum poder aquisitivo antes de ir pro Japão e fazendo extravagâncias no Brasil, ainda mais na própria região em que já moravam, começaram a chamar a atenção de bandidos e passando a ser vítimas de assaltos, sequestros e até assassinatos — e completou — Depois disso, com alertas aos dekasseguis essas ocorrências diminuíram.

— Não entendi a associação com Cabral — insistiu Mário.

— Ah! Sim. É que me lembrei dos pequenos burgueses, das pessoas vindas da pobreza que, melhorando rapidamente seus poderes aquisitivos, passaram a adquirir bens ostentosos apenas para exibirem suas novas condições… à burguesia… rsrs.

— Não entendi, Kazuo.

— Pois é. Pra mim, essa foi a razão aos dekasseguis, não ao ex-governador… rsrs — Kazuo sorriu — Se bem que até pra ele serve porque começou a ganhar tanto com corrupção que acabou se descuidando. E ao se exibir descaradamente chamou a atenção da PF. Não concorda, Mário?

— É. Acho que sim. Aliás, dentre os corruptos da Lava-Jato é o que mais provas descaradas tem — concordou, Mário — Esse não sai mais da prisão! — completou.

— Pois é. No Brasil, ganância com exibicionismo é perigoso, né.

 

Mudou de status

E se acha o maioral.

Pequeno burguês!

 

SILVIO SANO

SILVIO SANO

é arquiteto, jornalista e escritor.

E-mail: silvio.sano@yahoo.com
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