SILVIO SANO: NIPONICA: PEREGRINANDO… ou MOCHILANDO – Parte I

 

Nesta semana em que Paulo Kaneko lança seu livro No Caminho de Shikoku, em que descreve  percurso que fez, como peregrino, em torno da 4ª maior ilha do Japão, fui remetido a algo semelhante que fiz… 37 anos atrás!, como aventureiro.

Começou com o término de minha bolsa-estágio (kenshu) naquele país. Por ter sido minha primeira saída do Brasil, não queria que o retorno fosse direto. Pretendia começar minha aventura de navio, mas pela alegação, justa, de que a responsabilidade do governo da província de Mie, que me deu a bolsa, se encerrava com a garantia de minha chegada ao Brasil, o jeitinho foi desmembrar a passagem em vários pontos indicados por mim e diferença de preço por minha conta, assim: Haneda, Honolulu, San Francisco, New York, Mexico e São Paulo.

De mochila nas costas, cumpri o roteiro, de avião, até a cidade do México.Em Nova Iorque foi quando aquele espírito realmente adentrou-se em mim. No aeroporto de Newark, onde desembarquei, puxei conversa com dois brasileiros que lá se encontravam para pedir dicas. Sugeriram-me a própria cidade, reduto de sul americanos e centro americanos… clandestinos! Aceitei… rs. Acabei ficando uma semana porque conheci um caminhoneiro que faria uma entrega em Denver, Colorado, a 2,8 km dali! Fui!

Daí, a partir do México, “a pé” para o Brasil! Isto é, de forma literal, de ônibus, trem, caminhão e carona. Mil desafios! Cãibras por subidas e descidas em pirâmides; convite a Cuba, na época sem relações com o Brasil, recusado; carona em carro da embaixadora dos EUA,em El Salvador; pós-terremoto na Guatemala; frango no colo em ônibus lotado, no Equador; subida a pé da estação de trem ao topo de Machu Pichu devido à greve do ônibus; estado de sítio na Bolívia de Banzer; etc. Mas também mil inspirações! Como uma que me levou a desenhar o cartum que ilustra esta Nipônica, que enviei ao Salão Internacional de Humor de Piracicaba e que, no fim, acabei contemplado com publicação na revista VEJA (Nº 468 – Artes, 24/08/1977).

Ou seja, um caminho tão rico e inesquecível quanto o do Kaneko. Né, não? Se bem que nem tanto… por uma pequenina diferença ligada à nossa realidade: enquanto no dele, às vezes, podia ser contemplado com oferendas de comida e até de dinheiro, no meu corria o risco de ser assaltado… como fui, em Cusco!

 

Da forma que for

Com objetivo claro,

Caminho de bem.

 

 

 

Silvio Sano

é arquiteto e escritor. E-mail: silviossam@gmail.com

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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