SILVIO SANO > NIPÔNICA: Que país é esse?!

Como já se tornou hábito, tão logo chega do trabalho Hiroaki vai direto para diante da telinha a fim de, com Mário, assistir ao programa policial e, na sequência, ao noticiário, este, para melhorar seu conhecimento da língua portuguesa. Momento ideal para ele porque coincide com a janta, o que lhe propicia conversar muito com Mário, pela quantidade e variedade de assuntos.

Em vista disso, Hiro acabou ficando a par do cotidiano no país no que se refere à violência urbana, mas também sobre política, economia e, em especial, sobre o assunto do momento: corrupção! Como sua formação é em jornalismo, razão pela qual estagia em uma empresa afim da comunidade japonesa, está muito atento à Operação Lava Jato, mas também… estupefato!

— Puxa, Mário… como ter políticos corruptos em Brasil! — assim lhe expressou tão logo ficou a par da operação.

— Humn… humn! — respondeu-lhe, Mário, naturalmente.

— Héim?! Mário responder apenas… Humn… humn…? — Hiro imitou-o.

— Desculpe, Hiro. Não devia ser assim… — Mário mudou o semblante — Mas minha resposta acabou retratando bem a razão de isso ocorrer no Brasil: passividade… da população!

— Não entender — Hiro franziu o cenho.

— Culpa da banalização das coisas ruins que faz com que os brasileiros não liguem também às coisas da política! — Mário respondeu, sério.

— Ainda não entender!

— Ah! Sim… — Mário se lembrou de que Hiro ainda não dominava plenamente o português — Quando você anda por aí não vê fumantes jogarem bitucas de cigarros no chão displicentemente? E pior… ninguém dá bola.

— Sim! Ver bastante! Coisa feia…

— Pois é. E de carro, comigo? Com certeza, viu também bastante coisa feia, que não vê em seu país. Não é?

Soudesune! (verdade!) — respondeu espontaneamente — Outro dia, motorista da frente, tempo todo, braço fora da janela… depois, outro, jogar papel pela janela… e era mulher… até bonitinha… rs… e outro, passar sinal vermelho… outro, parar faixa de pedestre… outro…

— Caramba, Hiro… tá reparando mesmo, héim — Mário o interrompeu, rindo.

Hiroaki correspondeu.

— Pois é. Brasileiro não cobra de si mesmo, imagine cobrar dos outros! — justificou, Mário — Por isso, os donos do poder, os que legislam e os que sabem tirar proveitos disso, como empresários, foram fazendo essas coisas todos esses anos, sempre.

— Mas naquele dia, na Paulista, na manifestação, bastante gente — Hiro tentou amenizar.

— Sim. Mas só aquilo não adianta. Até porque estavam apenas quem têm mais formação e ainda levados pelas redes sociais. Só quando o povão tomar consciência do poder que tem, este país poderá mudar — fez uma pausa — o que vai ser difícil, exatamente pela questão da formação…

— Verdade — Hiro arriscou — Naquele dia, mesma hora, Lollapalooza mais gente e jogo de futebol também…

— Pois é, Hiro — lamentou, Mário — E como esse descaso em relação ao país parece endêmico, os poderosos, de alguma forma, continuarão se safando…

— Que país esse! — Hiro soltou, espontâneo.

Mário riu e quase cantarolou na sequência.

 

Que país é esse?!

Sem futuro esta Nação!

Até Hiro sabe!.

 

 

SILVIO SANO

SILVIO SANO

é arquiteto, jornalista e escritor.

E-mail: silvio.sano@yahoo.com
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