SILVIO SANO > Nipônica: Serviços Públicos

De repente, Hiroaki achou que estava silencioso demais lá fora. Resolveu dar uma olhada.

— Mário! Mário! — gritou, ao mesmo tempo em que retornava até a porta de entrada da casa para garantir ser ouvido.

Mário logo apareceu e com semblante preocupado.

— O que foi Hiro? Por que tanto alvoroço?

— Olha lá! Cadê?! Hómis, embora… deixar buraco assim! — apontou na direção a que se referia, bem em frente à casa.

Mostrou como ficara um buraco que a SABESP abriu para tapar o vazamento de água da rua, atendendo a um chamamento do próprio Mário.

— Ué? Eles já foram embora, Hiro?

Hai!… (Sim!) — Saiu sem querer da boca de Hiro — Como achar muito quieto, sair pra ver. Não estar mais! Sumir! Ir embora! — Hiro respondeu abrindo os braços, com olhar espantado.

— Pô! Os caras podiam ter me chamado antes de irem embora, né — reclamou Mário.

Atarimae (óbvio)…! — Saiu sem querer, novamente — Também achar.

— Pô! Já demoraram muito para atender ao chamado… e com toda aquela água potável jorrando esses dias — Mário não se conformava — Agora, tapam o buraco desse jeito e vão embora.

— Se chuva cair vai dar melé… melé… meléca! Não vai, Mário?

Mário até riu um pouco da expressão usada pelo inquilino japonês, mas concordou e emendou:

— No Japão isso não acontece, né?

Nom! — respondeu ele enfaticamente — No Japom, órgão público vem mesmo dia da chamada, córuta asfaruto com máquina… bonitinho… conseruta vazamento… tampa buraco e decha iguaru como estava antes — Hiro contou até com orgulho.

— Que inveja, cara. Aposto que todo serviço público lá seja bem feito. Não é, Hiro?

Antes de responder, ainda sorrindo, Hiroaki apontou.

— Por exemplo, no Japom, calçadas não são malfeitas assim… melhor, não ser esburacadas desse jeito — Hiro franziu o cenho e continuou — Outro dia, ajudar senhora do vizinho que tinha caído lá…

— A dona Zélia? — interrompeu-o, Mário — Por isso ela estava com pé engessado?

Hai! Hai! — e apontou para cima — Fiação desse jeito, não existir lá! Já começar enterrar, mas onde ainda aérea, ser bem feita. Isso aí, muito feio!! Bagunçado! — completou.

Mário riu, e acrescentou:

— Sem contar as gambiarras por falta de fiscalização!

Hiroaki olhou para Mário demonstrando não ter entendido.

— Gambiarra, Hiro… é a ajeitadinha que o povo faz, nesse caso, pra puxar luz pra casa… sem pagar… — explicou Mário, lamentando.

— No Japom, proibido! Ninguém fazer! Só órgão público! — Hiro foi taxativo — E se fazer, multa grande! Faltar isso no Brasil! — completou.

— Concordo! O problema neste país é a impunidade em todos os níveis — lamentou, Mário — Quando isso ocorrer… coisa que duvido…

Nom falar assim, Mário! — dessa vez, Hiroaki é que o interrompeu e em tom de reprimenda — Ter de agir! Ter de cobrar dos responsáveis!

Mário olhou-o admirado!

— Ligar já para órgão público! — cobrou-o.

Sem contestar, Mário saiu correndo para dentro de casa, para obedecê-lo.

 

Pegue essa bituca!

Não vá jogá-la no chão!

Comece por aí!

 

SILVIO SANO

SILVIO SANO

é arquiteto, jornalista e escritor.

E-mail: silvio.sano@yahoo.com
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