SILVIO SANO > NIPÔNICA: Sincera Manifestação

Mário é uma pessoa compreensível. Não apenas por Hiroaki, mas também pelos outros japoneses que já se valeram de sua residência em seus períodos de estágio no Brasil, mantém em seu pacote de TV por assinatura o canal japonês da NHK. Em virtude disso e pela facilidade de relacionamento com seus inquilinos acabava assistindo com eles a alguns programas japoneses, principalmente os musicais e esportivos.

Com isso acabou se apegando a alguns e, inclusive, assistindo-os mesmo nos períodos em que não tinha nenhum inquilino nipônico. Por isso, mesmo sem entender o japonês acabou tendo alguns daquela emissora como favoritos, como o beisebol, mas principalmente o sumô que passou a apreciar muito e se tornando até fã de um ou outro sumotori (lutador de sumo).

Mas foi com Hiroaki, atual inquilino, com quem mais conversou e teve muitas oportunidades de tirar suas dúvidas sobre a cultura japonesa, por ter sido o mais desenvolto na língua portuguesa, além de mais interessado no aprendizado e nas coisas sobre o Brasil. Assim, mutuamente, trocaram muitas ideias sobre seus respectivos países e, igualmente, sobre posturas cidadãs de lá e cá.

Mário, por exemplo, não se conformava que nos esportes tradicionais japoneses, como o sumô, os vencedores não costumavam comemorar suas vitórias no ato das conquistas.

— Tá certo que o brasileiro é exagerado — tentava justificar Mário a Hiro — a ponto de alguns jogadores de futebol até darem cambalhotas para comemorar um gol, mas o japonês poderia mosrar, ao menos, no semblante essa felicidade… Não acha?

— Camba… cambalhot… não entendi, Mário-san. Mas Jogador japonês de futebol também comemorar gols — Hiro tentou contesta-lo — Não viu outro dia na TV?

— Sim, porque o futebol é um esporte que veio de fora e quando os japoneses o adotaram levou junto a comemoração… aliás, pra copiar não tem igual ao japon… — percebendo a indelicadeza que soltaria, interrompeu-se.

Hiro percebeu, não achou ruim e até concordou.

— Mesmo besiboru (beisebol) — saiu em japonês de forma espontânea de sua boca devido ao instante indelicado — esporte já antigo no Japão, mas trazidos dos americanos… e junto, comemoração de ponto.

Mário, ainda sem jeito, não se manifestou.

— Com globalização, japonês começar aprender que comemorar vitória ser natural, que também fazer bem pro espírito — Hiro fez uma pausa — Mas sumô, tradição ainda muito forte.

Hiroaki olhou para Mário que o ouvia atento e prosseguiu:

— Tradição diz que comemorar vitória ser mesmo que desrespeitar perdedor… porque perdedor lutar também para ganhar. Por isso merecer respeito.

Mário acenou com a cabeça concordando.

— Querer saber, Mário-san? Alguns anos atrás, um sumotori comemorar vitória… bem, não bem comemorar, mas se emocionar por ganhar título… soltar lágrimas de verdade.

Mário olhou-o com espanto, depois do que ouvira há pouco.

— Mas esse sumotori… ser havaiano, radicado no Japão — completou com leve sorriso.

— Ah… — assim Mário respondeu, mas com igual sorriso.

 

Com todo respeito,

Mas não posso me conter.

Faz mal ao espírito.

 

 

SILVIO SANO

SILVIO SANO

é arquiteto, jornalista e escritor.

E-mail: silvio.sano@yahoo.com
www.nikkeypedia.org.br/index.php/Silvio_Sano
SILVIO SANO

Últimos posts por SILVIO SANO (exibir todos)

    Related Post

    AKIRA SAITO: HÁ RESPEITO? “De nada adianta requerer seus direitos se não se respeita o direito do próximo”   Com a modernidade, várias ferramentas surgiram para facili...
    AKIRA SAITO: BUDÔ DE TRÊS NÍVEIS   “O ser humano precisa de ferramentas para evoluir, seja fisicamente, mentalmente ou espiritualmente”     Jigoro Kano, celebre...
    JORGE NAGAO: Humorsquito e o Templo Zu Lai  Humorsquito     1) Se não mantiver a caixa d’água bem fechada, pode ser a gota d’água. 2) Se não remover as folhas da calha, ...
    ERIKA TAMURA: O Brasil é um país que me deixa divi...   Faz uma semana que cheguei ao Brasil. Cheia de saudades, com esperanças de ver um Brasil melhor que há sete anos, que foi a última vez que a...

    Faça seu comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *