SILVIO SANO > NIPÔNICA: SOU SÃO PAULO?!

 

Doze anos atrás, em minha primeira fase deste jornal Nippak, o já redator-chefe, Aldo-san, pediu-me para escrever um artigo sobre minha impressão sobre São Paulo devido à data comemorativa. Pensei até em reproduzi-lo agora, ipsis litteris, mas como, por minha conta, me determinei a escrevê-los sempre com um determinado tamanho, não será possível. Aquele passa… longe, no tamanho.

Mas de alguns trechos faço questão, como os dois primeiros parágrafos:

“Foi há 43 anos que pisei pela primeira vez na cidade de São Paulo, vindo de Fernandópolis, cidade do interior do mesmo Estado. E vim de trem, pela estrada de ferro araraquarense, outra emoção. Pouco antes, porém, um querido ‘tio’ (não biológico) me intimidou sobre esta cidade. Involuntariamente, lógico. Eu era o xodó dele, do ‘seu Narciso’, um ‘viajante’. Ou seja, para nós, ele ‘viajava’ quase sempre à Capital para comprar novidades e revendê-las em nossa cidade. Para ser mais claro, um sacoleiro dos dias de hoje. Enfim, ele gostava muito de mim. E ao saber de nossa mudança, começou a me contar sobre os perigos e os cuidados a se tomar no dia-a-dia de uma cidade grande. Lembro-me, apesar dos meus apenas 10 anos, que dizia de como era perigoso até para atravessar as ruas daqui. Imagine hoje, então! Assim, vim para cá com muita expectativa.

Não me recordo como se deu a passagem da apreensão para a adaptação, mas nunca me esquecerei da primeira aventura nesta cidade, dias após nossa chegada. Tendo nos mudado para perto do aeroporto de Congonhas, incitado por um primo mais velho e outro irmão, atraído pelas visões constantes dos aeroplanos no céu, e com aquela idade, acabei não recusando ao convite deles para ir até lá… para ver aviões. Não tínhamos a noção de distância (já não parecia tão perto assim) e, pelo jeito, nem a de direção porque na volta nos perdemos, retornando bem tarde para casa. Mas não a ponto de causar alguma apreensão, já que não me recordo de ter levado bronca ou castigo”.

Daí, falei de televizinho, na casa do amigo Eiji Denda, que ainda nem cogitava ser presidente do Banco América do Sul, mas também do meu “tesouro” (uma latinha com bolinhas de gude, figurinhas, tampinhas e, sei lá mais o quê) ainda enterrado no quintal da primeira casa onde moramos, com “mapa de pirata” e tudo. Bem como daquilo que nunca me esquecerei, de que fui vítima da violência urbana que vigi no país, razão de ter saído do país como dekassegui, e que, mesmo assim, meu sentimento de ódio não superava o de amor pela cidade.

Passado doze anos, mudei minha opinião… mesmo tendo afirmado, no último parágrafo, que, “aqui, conheci minha esposa Kazue, projetei e construí minha residência, tive meu filho Tadashi, plantei minha árvore (aliás, duas) e publiquei meus livros (aliás, quatroseis)…”

Pois é, não é mais bem assim, para mim. Não tem mais essa de o sentimento de amor superar o de ódio… mas também, nem muito pelo contrário… se é que me entendem. Ou seja, nada a comemorar, mas pelo vínculo consolidado manter-se solidário a ela.

 

São Paulo já era?

Não! É como sempre foi:

Motor do país!

 

SILVIO SANO

SILVIO SANO

é arquiteto, jornalista e escritor.

E-mail: silvio.sano@yahoo.com
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