SILVIO SANO > NIPÔNICA: Tim Maia suporta ressaca. Ciclovia, não!

O desabamento da ciclovia Tim Maia, em São Conrado, no Rio de Janeiro, a mim não se restringiu apenas a uma tragédia em que ocorreram duas vítimas fatais, mas me remeteu a alguns aspectos por mim já abordado em Nipônicas anteriores, ainda mais em se tratando de Brasil. Fazer o quê?

E exatamente por isso também, reforçado pelos laudos técnicos, apesar de trágico, até mesmo, memes viralizaram nas redes sociais. O próprio título, acima, é um deles. E a presidente também não escapou com a insinuação de que se deveria trocar o nome da mesma, pelo do da presidente… por não suportar pedaladas! Assim como outro, porque, ao lado, tinha uma estrutura centenária de pé, e “sem arranhões”, e a ciclovia tinha sido inaugurada três meses antes. Sem contar fotos postadas de outros pontos da ciclovia mostrando falta de muitos parafusos estruturais (nesse caso, pode até ter sido montagem, via Photoshop), etc. De qualquer forma, confirmando o jargão, de José Simão, do País da Piada Pronta.

Mas voltemos aos meus aspectos.

O primeiro, confirmado por revelações, dentre as quais de que a construtora responsável teria ligação familiar com o secretário do Turismo da cidade, da alegação de superfaturamento e de falha técnica grotesca, como a não previsão dos impactos da ressaca, comum no local. Ou seja, fui remetido àquela piada do político brasileiro que aprendera, com um político inglês, como se enriquecer sendo político. A diferença é que o inglês punha 10% das obras no bolso enquanto o brasileiro, em alguns casos, até 100%!! Como nessa ciclovia, superfaturada, mas de baixo custo (?)… ou das pontes que “saem do nada para irem a lugar nenhum”, se é que me entendem.

O segundo, pela foto chocante (?!), em que banhistas jogavam bola ao lado dos dois corpos estendidos e cobertos por cangas, na praia, logo abaixo da mesma. Isso me remeteu a um artigo que escrevi, anos atrás, sobre o perigo da banalização generalizada da violência, devido a uma reportagem que tinha lido de que, em uma favela do Rio, crianças jogavam bola… com a cabeça!!, de um cidadão que tinham achado sobre o capô de um carro. Ou seja, a violência naquele local já devia ser tanta, que a elas não mais chocavam! Por isso, temos de dar as mãos para impedir que se generalize… assim como já consideramos normal grades altas ou portões fechados nas residências, apartamentos e conjuntos habitacionais.

E, por fim, a questão do “fazer tudo nas coxas”, mesmo quando superfaturado, como se fosse algo inerente… neles! Bastar ver os noticiários para constatarmos isso. Tudo para lucrarem ainda mais! Como muitas das rodovias estaduais e federais por todo o Brasil, e que acabam penalizando caminhoneiros, ou as malfeitas obras de transposição do Rio São Francisco, etc. Mesmo obras privadas não escapam. Como em 1998, quando os prédios de alto padrão, de Sergio Naya, desabaram devido ao uso de material… de baixo padrão!

Insinuei montagem por Photoshop àquelas fotos sem parafusos na ciclovia, mas também não duvido que possam ser verdadeiras.

 

Respeito a outrem,

Mas respeito a si mesmo

Isso é que vale!

 

 

SILVIO SANO

SILVIO SANO

é arquiteto, jornalista e escritor.

E-mail: silvio.sano@yahoo.com
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