SILVIO SANO > NIPÔNICA: Violência Urbana

Para melhorar seu português, desde quando chegou ao Brasil, baseado no fato de em seu país os noticiários televisivos serem os que praticam a linguagem nacional oficial correta, Hiroaki também os adotou para esse fim. “Aqui não é bem assim”, Mário já o alertou, mas focado nisso, e devido à própria curiosidade, acabou conhecendo e adotando também alguns outros programas da TV, dentre os quais aqueles específicos à violência urbana.

— Nossa! Ficar assustado com tanta violência em Brasil! — comentou com Mário em um de seus primeiros dias naquela casa após já ter visto alguns desses programas.

— Se tivesse conhecimento disso antes de vir para o Brasil, mesmo com esse fanatismo todo pelo Corinthians, talvez nem tivesse vindo pra cá. Né, Hiro? — respondeu-lhe no ato, Mário.

Hiroaki, não apenas estava admirado com a popularidade desse tipo de programa como com o nível de violência que via. E sempre que chegava mais cedo do trabalho já ia à frente da telinha para assisti-lo… juntamente com Mário que, normalmente, já estava com a TV ligada no canal.

— Caramba! Todo dia ter caso novo, né! — acabava comentando em voz alta, mas aos quais Mário nem mais o respondia, a não ser por um movimento lateral de cabeça e semblante reprovador.

Até que um dia, durante a janta, com a TV ligada num desses programas, no encerramento do mesmo, Hiroaki comentou:

— Agora entender porque casa de Mário ter grade na frente. Primeiro dia que chegar aqui, achar estranho Mário me receber atrás de portão trancado.

Mário sorriu.

— Agora, já reparar que vizinhos, todos, têm grades na frente. Até apartamentos! — Hiro reforçou.

— Pois é, Hiro. Por isso, no Brasil, falamos que nós, cidadãos de bem, estamos presos enquanto os ladrões soltos — respondeu-lhe, Mário — E mesmo assim, não estamos seguros — reforçou.

— Em Japão, diferente! Nenhuma casa ter grade! — Hiro falou orgulhoso — E porta das casas, quase sempre não trancada — completou.

— Que inveja! — Mário foi sincero.

— Polícia não andar armado — Hiro prosseguiu — Ficar assustado quando, primeira vez, ver policial com arma na cintura…

— É… — Mário o interrompeu — E aqui tem criminoso até muito melhor armado do que policial…

— Verdade! — foi a vez de Hiro o interromper — ontem, programa mostrar armas achadas naquela favela no Rio. Caramba! Fuzil poderoso que nem exército tem!

— Pois é, Hiro. Trazidas de fora do país! Contrabando… Tráfico!!

— Como possível isso?! — Hiro o indagou.

— Bem… acha mesmo que preciso te explicar, Hiro?

O japonês sorriu dando a entender que não, mesmo pelo pouco tempo que estava no Brasil.

— O Brasil nunca chegará ao nível do Japão devido às desigualdades socioeconômicas que são escandalosamente enormes… e histórica — Mário preferiu amenizar o assunto, mas percebendo incompreensão da parte do japonês, prosseguiu —  por pressões da sociedade, já melhorou muito, mas o que falta mesmo é vontade política… e mesmo assim, igual ao Japão nunca chegará…

— …?! — Hiro mostrou-se ainda confuso.

Hiro o entendeu.

— Ah! Deixa pra lá, Hiro. Posso recolher os pratos? — encerrou a conversa.

 

País violento.

Como explicar a Hiro?

Soltando-o por aí…

 

SILVIO SANO

SILVIO SANO

é arquiteto, jornalista e escritor.

E-mail: silvio.sano@yahoo.com
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