VALE DO RIBEIRA: Dona Ume Shimada ressuscita o cultivo do chá preto artesanal

Enquanto muitos fecharam as portas para o cultivo do chá no Vale do Ribeira, especialmente na cidade de Registro, a audaciosa e simpática Ume Shimada, de 88 anos, ressuscita sua plantação de chá em meio ao mato que cresceu. Desde os cinco anos de idade dona Ume, ou Elizabete – nome de batismo -, já tinha intimidade com o chazal, pois catava semente brotada para seu pai. Hoje ela é considerada a “Rainha do Chá”.

 

Dona Ume Shimada no laboratório do Chá Obaatian (Foto: Luci Judice Yizima)

Dona Ume Shimada no laboratório do Chá Obaatian (Foto: Luci Judice Yizima)

 

O Jornal Nippak foi conferir de perto no Sitio da Família Shimada, localizado no centro urbano da cidade de Registro para conhecer sua história e saber como ela espantou a crise que assolava a região. “Olhava para o chazal coberto de mato, fiquei muito triste, chorava de tristeza”, conta. “Um dia eu conversando com amigos da região, soube que poderia limpar e recuperar o chazal. Então, não perdi tempo fiz a limpeza, fui a busca de maquinários, comprei uma máquina de secar e uma máquina de moer chá que tinha lá em um ferro velho, e estamos produzindo chá a todo vapor”,  conta dona Ume, com uma disposição para encarar qualquer desafio, e ver as coisas pelo seu lado positivo.

De acordo com a dona Ume, por dia são colhidos 20 quilos de brotos de chá, toda a produção do chá é feita manualmente por ela. Os chás são feitos de brotos e folhas recém-emergidas, colhidas manualmente a cada duas ou três semanas de setembro a maio. Em três meses tem nova safra. Após a colheita, as folhas são espalhadas em grandes bandejas e deixadas para secar por períodos de tempo variados. Depois, elas são enroladas ou cortadas para liberar enzimas e, então, há a ‘fermentação’. Açúcares e taninos são liberados como os ‘fermentos’ do chá. Na verdade, esse é um processo de oxidação enzimática, pois não há formação de álcool. O processo é interrompido por aquecimento em certos estágios para produzir os diversos tipos de chá disponíveis.

 

(Foto: Luci Judice Yizima)

De acordo com a dona Ume, por dia são colhidos 20 quilos de brotos de chá, toda a produção do chá é feita manualmente por ela (Foto: Luci Judice Yizima)

 

“Com a ajuda dos meus filhos, netos e funcionários, resgatamos a cultura do Chá Preto, com a qual convivi ortodoxamente desde a minha infância. Antes colhia os brotos e repassava para a Fábrica Amaya, porém eles deixaram de comprar os meus brotos e mantém produção própria”, lembra dona Shimada. Sem ter para quem fornecer os brotos, decidiu abrir a própria empresa de chá artesanal denominada de Obaatian, criada pelos netos.

Além da produção do Chá, o Sítio Shimada também cultiva 600 pés da melhor e mais doce lichia do Vale do Ribeira que é comercializada em dezembro na Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo). A Família Shimada não para por aí, a filha Terezinha com quem dona Ume compartilha sua casa, produz biscoitos doces, nhoque de batata e mandioca, e também raviole e massas congeladas em geral.

 

 

Terezinha Shimada (filha, Ume Shimada e seu genro Aurelino (Foto: Luci Judice Yizima)

Terezinha Shimada (filha, Ume Shimada e seu genro Aurelino (Foto: Luci Judice Yizima)

 

World Travel Market – A empreendedora Família Shimada, de olho no Turismo Rural pretende abrir as portas do sítio para receber grupos previamente agendados, para fazer um passeio no chazal e mostrar sua cultura na arte de fazer chá. Durante a entrevista dona Ume se mostrou muito otimista com os negócios da família. “Será um prazer em receber grupos em minha propriedade e experimentarem o meu chá. Um orgulho ver o meu trabalho sendo apreciado por muitas pessoas, e fazendo o bem”, diz emocionada dona Ume.

Em abril passado, as famílias Amaya e Shimada – únicos produtores de chá do município de Registro, marcaram presença na WTM – World Travel Market – Latin America, o principal evento mundial do setor de viagens e turismo da América Latina. A participação foi efetivada através do Codivar (Consórcio Intermunicipal do Vale do Ribeira).

Realizada em São Paulo entre os dias 22 a 24 de abril, a WTM Latin America atraiu mais de 15 mil dos mais importantes executivos interessados no setor de viagens da América Latina. Na edição 2014, US$ 341 milhões foram transacionados, entre 1.300 expositores e cerca de 900 compradores. A feira faz parte do portfólio da Reed Travel Exhibitions, que inclui também a World Travel Market, o Arabian Travel Market e a World Travel Market Africa.

Durante o evento, que teve a finalidade de divulgar a América Latina para o mundo e vice-versa, as famílias Amaya e Shimada promoveram a degustação dos chás Amaya e Obaatian aos visitantes. A assessora de Turismo de Registro também estabeleceu contato com líderes importantes do Turismo no Estado, como o Secretário de Turismo, Roberto de Lucena, e Carlos Fernando Zuppo, da Aprecesp (Associação das Prefeituras de Estâncias Turísticas). “O secretário demonstrou grande interesse em contribuir com o crescimento do Turismo no Vale do Ribeira, uma região com grande diversidade de atrativos naturais e turísticos”, revela Maurízia. Em Registro, ela destaca a riqueza cultural e histórica propiciada especialmente pela imigração japonesa.

“Nosso município já chegou a ser a capital do chá, com mais de 40 fábricas de chá preto. Hoje, as famílias Amaya e Shimada lutam para manter viva essa tradição, que também pode ser um atrativo turístico junto com os casarões tombados como patrimônio histórico pelo Iphan”, explica Maurízia, lembrando que Registro é considerado o Marco da Colonização Japonesa no Estado de São Paulo, conforme o Decreto nº 50.652, de 30 de março de 2006, por ter sido a primeira localidade a receber imigrantes japoneses interessados em investir em produção própria no Estado.

Além de Maurízia, também representaram Registro na World Travel Market – Latin America: Milton Amaya, Disney Imasato, Aurelino Cruz e Bernadete Shimada Hamasaki.

(Luci Judice Yizima)

 


 

 

Vale do Ribeira viveu ‘época de ouro’ do chá preto

 

 

A região do Vale do Ribeira, no interior de São Paulo, era uma importante produtora de chá preto. Várias indústrias se instalaram pelo lugar para processar as folhas. A década de 80 foi considerada a época de ouro do chá preto no Vale do Ribeira, onde tinha sete fabricantes e mais de 1,5 mil produtores da cultura. Hoje, há apenas a fábrica de Amaya e Shimada que recebe matéria prima de apenas quatro produtores. Isso faz com que as máquinas fiquem cada vez mais tempo paradas. O alto custo de produção torna difícil encarar a concorrência do mercado internacional.

Um imigrante japonês começou a plantar chá em Registro em 1935. As mudas trazidas na época são preservadas pela família do imigrante como um símbolo da importância do cultivo. O ex-produtor Luiz Antônio Penteado, que teve plantação de chá por 15 anos, credita a decadência do plantio à valorização do real na década de 90.

Na antiga rota do chá em Registro ficaram fábricas fechadas e plantações perdidas. Justamente quando a produção do Brasil é pequena e não tem como atender o mercado externo, os principais produtores mundiais enfrentam problemas climáticos. O Quênia perdeu parte da produção por causa da seca e a Índia por causa das enchentes.

 

 

 

 

 

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