VIII FIB: Ex-presidente da Sony, Morimoto propõe discussão sobre ‘líder servidor’ e ‘líder ético’

O papel do líder na comunidade nipo-brasileira foi um dos assuntos abordados pelo ex-presidente da Sony, Masayoshi Morimoto na abertura do VIII FIB – Fórum de Integração Bunkyo. Realizado pelo Bunkyo nos dias 8 e 9 no Salão Nobre da entidade, o evento deste ano teve como tema principal “Transformando potencial em performance”. Também estiveram presentes na abertura, dia 8, o cônsul geral do Japão em São Paulo, Takahiro Nakamae e o deputado federal Walter Ihoshi (PSD-SP).

 

No VIII FIB, Masayoshi Morimoto propõe à comunidade discutir sobre novas formas de liderança. Foto: Aldo Shiguti

No VIII FIB, Masayoshi Morimoto propõe à comunidade discutir sobre novas formas de liderança. Foto: Aldo Shiguti

 

Atualmente professor da Universidade Wales, no Reino Unido, diretor-executivo do Kaigai Nikkeijin Kyokai (Associação de Nikkeis e Japoneses no Exterior) e conselheiro da Comissão de Assessoria para Desenvolvimento Econômico e de Comércio Exterior da Nova Zelândia, Masayoshi Morimoto destacou que “ser um líder da comunidade nikkei deve ser um grande desafio”.

“A exigência e estilo de liderança em uma organização dependem do ambiente e do valor de seus membros”, disse Morimoto, acrescentando que “a imagem de um líder se trata de alguém que está executando na frente enquanto outros membros procuram não se atrasar”. No entanto, disse, hoje em dia está surgindo um novo estilo de liderança, o chamado “líder servidor”. “Um líder servidor parece ser mais como um servo, não uma pessoa que dá ordens. Ele irá organizar um ambiente de trabalho e recursos para que seus surbordinados possam trabalhar melhor. Ele não dá instruções detalhadas, mas deixa que as pessoas trabalhem com autonomia o quanto possível”, explicou Morimoto, que morou no Brasil entre 1987 e 1997, época que presidiu a Sony do Brasil.

Segundo ele, que afirmou ter “sofrido muito com o Plano Collor”, o “líder servidor é bem aceito em uma organização que não tem muitas mudanças e têm bons recursos humanos”. “Por isso pode ser aplicado para a comunidade nikkei do Brasil”, disse, destacando que outro conceito de líder é o “líder ético”.

De acordo com sua explicação, o líder ético é alguém que não visa lucro a curto prazo, “mas presta atenção integral às partes interessadas, tais como fornecedores, clientes e funcionários para a realização de benefício mútuo, que será a base para a sustentabilidade da empresa”. Para ele, a ideia de líder ético poderia ser aplicado nas relações entre o Bunkyo e outras associações nikkeis. Morimoto, que aprendeu a gostar do país, disse que, depois que retornou para o Japão acabou perdendo o contato com os brasileiros e também com a língua portuguesa. O contato, conta, só foi retomado recentemente.

 

Convidados presentes no VIII Forum de Integração Bunkyo realizado nos dias 8 e 9. Foto: Jiro Mochizuki

Convidados presentes no VIII Forum de Integração Bunkyo realizado nos dias 8 e 9. Foto: Jiro Mochizuki

 

Novos amigos – Em 2014, a convite do então presidente Ricardo Nishimura, teve oportunidade de participar da 6ª edição do FIB, quando falou sobre “O Nikkei na perspectiva de um japonês”. Para ele, que também morou por 15 anos nos Estados Unidos, o que o deixa mais contente é a oportunidade de fazer novas amizades sempre que visita o país.

“Aos 77 anos, estou perdendo muitos amigos no Japão e também nos Estados Unidos, ao contrário daqui, onde todos os anos encontro novas pessoas”, disse.

 

Morimoto participou de mais uma edição do FIB. Foto: Jiro Mochizuki

Morimoto participou de mais uma edição do FIB. Foto: Jiro Mochizuki

 

Virtudes – Morimoto, que em sua sua terceira participação no FIB abordou o tema “A importância dos líderes nikkeis na manutenção da cultura”, destacou também que hoje em dia muitas associações nipo-brasileiras “perderam o propósito inicial de sua existência” porque “os nikkeis não são mais imigrantes sem recursos financeiros e também porque eles vem alcançado sucesso na sociedade brasileira”.

Para ele, que também citou o psicólogo americano Abraham Harold Maslow (1908-1970), que descobriu a “hierarquia das Necessidades”, as associações nikkeis devem mudar suas políticas pois “os nikkeis não são mais uma minoria que precisam ser protegidos coletivamente contra a discriminação e já se tornaram uma classe bem destacada na sociedade brasileira diversificada. Como mudar e para onde ir, segundo ele, são perguntas difíceis de serem respondidas.

Para o ex-presidente da Sony, “o principal componente da identidade japonesa em um nikkei é “a sua crença de que ele é diligente, honesto, paciente e cheio de entusiasmo para o ensino, exatamente como seus pais e outros japoneses e diferentemente da maioria dos brasileiros ao seu redor”.

 

Mottainai – “Estas virtudes tem uma longa história e eles são cultivados na maioria dos japoneses. Elas ajudam as pessoas a enfrentar tempos difíceis e discipliná-lo em momentos agradáveis. Creio que são a base do orgulho de ser japonês e nikkei”, disse Morimoto, acrescentando que “a sociedade japonesa está mantendo a maioria dessas virtudes, mas algumas delas que me foram ensinadas na infância, porém, não estão sendo mais praticados”.

“São eles: “Mottainai”, que significa a mentalidade de apreciar mesmo as pequenas coisas, e “Oya-koukou”, que significa ser atencioso com os pais. Eu acredito que o Mottainai e Oya-koukou ainda são mantidos pelos nikkeis no Brasil”, afirmou Morimoto, que brincou ao solicitar para que o público presente transmitisse tais valores para os japoneses.

Ele explicou que seria “um excelente exercício para o autodesenvolvimento se os nikkeis aliassem as virtudes japonesas à tolerância à diversidade dos brasileiros. E como fazer isso? O próprio Morimoto se encarrega de responder.

“As pessoas aprendem a ética naturalmente dentro da sua família e na escola. Primeiro, podemos prestar mais atenção aos nossos filhos e uma associação nikkei pode ajudar as escolas e comunidade de forma voluntária”, disse, destacando que ajudar a aprender o idioma japonês, transmitir contos japoneses disponíveis, estudar a biografia de nikkeis que são respeitados por sua mente ética e contribuição para a comunidade, utilizar as redes sociais para compartilhar as experiências e compartilhar com as associações de bolsistas as experiências de seus participantes no Japão, mesmo as negativas, são outros meios. “Mas a coisa mais importante é que, como líderes de nikkeis, vocês devem demonstrar aos nikkeis diligência, honestidade, paciência e outros valores éticos do Japão”, disse Morimoto.

 

Takahiro Nakamae apresentou suas ideias sobre a comunidade. Foto: Jiro Mochizuki

Takahiro Nakamae apresentou suas ideias sobre a comunidade. Foto: Jiro Mochizuki

 

Rio 2016 – Já o cônsul Takahiro Nakamae apresentou “pensamentos e ideias” acumuladas desde que assumiu o posto em São Paulo, há 16 meses. “Essas considerações são de caráter pessoal e, portanto, não refletem a posição oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão, instituição a qual pertenço”, esclareceu Nakamae, que considera o período que está no Brasil “uma das mais ricas e gratificantes de sua carreira diplomática”.

O cônsul lembrou de duas observações feitas na edição passada do FIB, quando falou sobre “como estimular a dimensão da comunidade japonesa e sobre a magnitude da presença da comunidade japonesa no Brasil e o desafio para entender essa grandeza”. Ele lembrou a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016, quando houve “uma surpreendente e esplêndida” apresentação destacando a imigração japonesa na história do Brasil. “Penso que o reconhecimento da história da imigração japonesa e do Japão expressados naquele evento podem ser o consenso de quase todo o povo brasileiro”, afirmou.

 

Maravilhosos nikkeis – Sobre a relação entre a dimensão e a autoconsciência do nikkei, Nakamae disse que, anualmente, o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão seleciona jovens nikkeis interessados em participar do programa a convite do governo japonês. “No início naõ estava seguro quanto ao número de inscritos e suas qualificações. Entretanto, mais de 200 pessoas se inscreveram para as duas vagas disponibilizadas para cada programa. Selecionamos em média 20 candidatos para a entrevista e percebemos que eles não apenas são competentes cidadãos brasileiros como também demonstram possiuir forte orgulho e autoconfiança por serem descendente de japoneses. Enfim, são maravilhosos nipo-brasileiros”, disse o cônsul, acrescentando que “nem é preciso mencionar a enorme dificuldade na seleção final dos candidatos”.

Nakamae também destacou que “o horizonte dos nipo-brasileiros alvos da colaboração, está se ampliando”. “São cerca de 245 mil imigrantes japoneses que vieram ao Brasil e, estima-se que, hoje em dia, são um milhão e 900 mil nipo-descendentes. Entre eles, as pessoas que se autodeclararam pertencerem à comunidade nikkei sejam aproximadamente entre 100 e 200 mil. Ou seja, fora dessa comunidade, estima-se mais de um milhão e 700 mil nipo-brasileiros. Sobre essas pessoas, ouço comentários como “a integração à sociedade brasileira avança e vai-se perdendo a identidade japonesa. No entanto, não se deve esquecer o importante fato de que a boa avaliação sobre a imigração japonesa no Brasil se deve justamente ao fato de esses nipo-descendentes estarem tão bem integrados neste país atuando como brilhantes brasileiros”, disse o cônsul, destacando que nos últimos anos tem surgido uma nova forma de integração, os chamados “decasseguis retornados e seus filhos”.

 

Akemi Matsuda “roubou a cena” no sábado. Foto: Jiro Mochizuki

Akemi Matsuda “roubou a cena” no sábado. Foto: Jiro Mochizuki

Decasseguis – “Em várias ocasiões, ouvi dizer que o relacionamento entre pessoas que foram decassegui e outros nipo-brasileiros que permaneceram no Brasil, existe um sentimento complexo e deliciado. Entretanto, esses filhos não tem responsabilidade. Além disso, caso aumente o número de nipo-brasileiros da próxima geração que consideram negativa a experiência no Japão ou a sua própria identidade, isso não será favorável para o desenvolvimento da comunidade como um todo”, ponderou Nakamae, que sente uma “mudança do paradigma nesse relacionamento”.

“Atualmente é o Japão que necessita da parceria com a comunidade nipo-brasileira para garantir os seus interesses na comunidade internacional e para o desenvolvimento da relação bilateral com o Brasil”, disse o cônsul, afirmando que também constatou mudanças importantes na característica de algumas atividades da comunidade.

Como exemplo, citou os alunos dos cursos de língua japonesa nos kaikans em que “mais da metade são de origem não japonesa”. Mencionou também o Mimi Party, festival da cultura kawaii, realizado na Associação Hokkaido de Cultura e Assistência, em São Paulo e que reuniu um grande número de não descendentes,  e o Nippon Talk, organizado por jovens do Nippon Country Club, que reuniu cerca de mil jovens de diferentes origens.

 

Japan House – Por fim, Takahiro Nakamae abordou o projeto Japan House, previsto para ser inaugurado em março de 2017, na Av. Paulista. Segundo ele, a Japan House é uma instalação que fortalecerá a capacidade de divulgação do Japão. “Tentará disseminar a ‘correta e atualizada visão’ sobre o Japão para uma vasta gama de pessoas, incluindo aquelas que até hoje não tinham tanto interesse pelo Japão”, lembrando que o propósito da Japan House não é ser um espaço a ser alugado para eventos ou apresentações culturais realizados pelas entidades locais.

“A Japan House provavelmente irá sugerir uma experiência muito diferente daquela que tradicionalmente vem sendo proporcionada. O objetivo é divulgar a cultura, a tecnologia, a sociedade do ‘Japão de hoje’, experiências essas semelhantes às daquelas vivenciadas quando se visita o Japão”, destacou o cônsul, lembrando que a Japan House de São Paulo será instalada pela primeira no mundo, juntamente com a de Londres e a de Los Angeles.

 

Para deputado Walter Ihoshi, país sairá fortalecido da crise. Foto: Jiro Mochizuki

Para deputado Walter Ihoshi, país sairá fortalecido da crise. Foto: Jiro Mochizuki

 

Impeachment – Também presente na abertura, o deputado federal Walter Ihoshi lembrou que o país atravessou – e ainda atravessa – um momento muito difícil, que culminou com o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e que “custou muito caro para nós”. “Mas saímos desse processo com a esperança renovada”, disse Ihoshi, afirmando que durante as eleições municipais visitou cerca de 40 municípios paulistas, “muitos elegeram prefeitos e vereadores de origem nikkei”.

“Como ponto positivo, destacamos a realização dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos no Brasil, que resgataram a autoestima dos brasileiros. Os Jogos mostraram que o povo brasileiro é muito maior que esse momento que estamos vivendo”, disse o parlamentar, que em 2017 retorna à Câmara dos Deputados.

Também palestraram no VIII FIB Fernando Matsumoto, a lolita Akemi Matsuda, Kelly Nagaoka, Tatti Maeda e Paulo Silvestre. O evento contou ainda com oficinas, workshops, debates e apresentações culturais.

 

ALDO SHIGUTI

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