VISITA DO PRÍNCIPE HERDEIRO: ‘Simpático’ e ‘atencioso’, Naruhito conquista comunidade nikkei em sua terceira visita ao país

“A água é um pré-requisito para que as comunidades de pessoas vivam e pacificamente. Mulheres, crianças, idosos, pessoas com deficiência e outras pessoas socialmente vulneráveis sofrem mais por desastres relacionados à água, às secas, bem como instabilidade regional. A comunidade internacional precisa dar prioridade à provisão sustentável de água e saneamento, mesmo em situações de emergência”. A declaração foi feita pelo príncipe herdeiro do Japão, Naruhito, no dia 19 de março, durante seu discurso no 8º Fórum Mundial da Água, realizado entre os dias 18 e 23 do mesmo mês, em Brasília.

 

‘Carismático’, Naruhito conquista comunidade em sua 3ª visita ao país.
Foto: Kohei Osawa

 

O primôgenito do imperador Akihito defendeu a união de vários setores para a resolução de problemas relacionados à água. “Por isso, chamo as as pessoas do setor da água a se aproximarem de forma proativa e conduzirem diálogos com as partes interessadas de desafios maiores como gênero, educação, refugiados e migração e pobreza”, disse Naruhito, quefoi palestrante no Painel de Alto Nível (HLP1): Água e desastres naturais.

O príncipe, que até 2015 era presidente honorário do Painel Consultivo sobre Água e Saneamento do Secretariado-Geral da ONU, participou ainda, como ouvinte, no Painel de Alto Nível (HLP04): Crises hídricas no Brasil, e no Painel de Alto Nível (HLP6): Parcerias inclusivas, multi-institucionais e governança participativa.

Em sua terceira visita ao país – as duas primeiras foram em 1982 e em 2008, por ocasião das comemorações do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil – Naruhito desembarcou no Aerporto Internacional de Brasília no dia 18 e desta vez sua estadia se restringiu ao Distrito Federal.

 

Presidente Michel Temer cumprimenta príncipe Naruhito no Palácio do Planalto.
Foto: Alan Santos (Agência Brasil)

 

Temer – Sua agenda incluiu um almoço oferecido pelo presidente Michel Temer (PMDB) no Palácio do Planalto e uma visita ao Centro de Pesquisa Agropecuária do Cerrado (Embrapa Cerrados).

Na conversa com Naruhito – uma das sete que teve no dia 19 com chefes de governo e chefes de Estado que estiveram no Brasil para participarem do Fórum – Temer lembrou de sua visita ao Japão em 2016.

Na ocasião, a viagem oficial do presidente ao Japão – a primeira visita de um chefe de Estado brasileiro ao país em 11 anos –  teve como um dos principais resultados o reforço da parceria estratégica entre os dois países. Durante três dias (18, 19 e 20 de outubro), Temer participou de encontros com empresários, de uma reunião de trabalho com o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, e foi recebido pelo imperador Akihito. Além disso, o governo brasileiro assinou um acordo na área de infraestrutura.

O príncipe, por sua vez, contou ao presidente sobre a visita que fez à Embrapa Cerrados no dia anterior (18), e destacou os resultados positivos da cooperação dos dois países na agronomia.

 

Parceria – A visita à Embrapa Cerrados, aliás, distante cerca de 35 quilômetros do centro de Brasília, foi um pedido pessoal de Naruhito, que já havia visitado o local em 1982. O interesse de Naruhito se justifica. Afinal, a Embrapa teve, sobretudo nas décadas de 70 e 80, uma forte parceria com a Agência de Cooperação Internacional do Japão (Jica). Com essa parceria, foi possível, por exemplo, avançar nas pesquisas de correção do solo ácido do Cerrado. Com conhecimento técnico e equipamentos japoneses, a Embrapa conseguiu plantar com sucesso soja, café, milho, algodão, dentre outras culturas.

“Nós recebemos equipamentos muito importantes num momento em que era difícil estruturar e montar laboratórios. A cooperação japonesa teve um papel muito importante no desenvolvimento dessa unidade”, disse o presidente da Embrapa, Maurício Lopes. “Parcerias, como a Embrapa – Jica ajudaram o Brasil a transformar seus solos, grandes extensões de solos pobres e ácidos, em solos férteis. Ajudou a tropicalizar cultivos e também no desenvolvimento de práticas sustentáveis”, completou.

Desta vez, em companhia do presidente da empresa, Naruhito visitou duas fazendas. Lá, ele conheceu as plantações de café, soja e cana-de-açúcar.

 

Café robusta – O príncipe acompanhou explicações sobre  tecnologias  e projetos  desenvolvidos pela Embrapa, como o conceito Carne Carbono Neutro, o sistema Integração Lavoura Pecuária, além do processo de inoculação, por meio do qual bactérias fixadoras de nitrogênio  são adicionadas às sementes das plantas antes da semeadura nas lavouras de soja.

No campo experimental de café, o príncipe fotografou o funcionamento de um sistema de irrigação e teve informações sobre o café robusta produzido no Cerrado, um dos melhores na produção de cafés de qualidade e valor de mercado.  Durante toda a visita, Naruhito revelou muito interesse nas informações, em especial às relacionadas às formas de uso sustentável da água na atividade agrícola e proteção do solo, uma das estratégias que mais tem mobilizado a atenção da pesquisa, voltada à busca cada vez maior da sustentabilidade no campo.

“Ele ficou bastante impressionado de ver o café robusta no Cerrado. O Brasil é muito conhecido como produtor do café arábica, mas cada vez mais o café robusta ganha expressão. É um café muito importante para se fazer o café solúvel, cafés de alta qualidade e de alto valor no mercado”, disse Lopes após o encontro.

 

Naruhito com o presidente da Embrapa, Maurício Lopes.
Foto: Marcello Casal (Agência Brasil)

 

Masato Kobayashi – O presidente da Embrapa destacou ainda durante a visita as tecnologias que vem sendo desenvolvidas com a cana de açúcar, assim como o potencial brasileiro na produção de etanol, que já garantiu ao país a liderança mundial do setor, especialmente no que diz respeito à tecnologia que permite mais produtividade. Sobre os mais de 40 anos de pesquisa da Embrapa, Maurício Lopes relatou ao príncipe herdeiro um panorama das diversas áreas que têm concentrado a atenção dos pesquisadores da empresa, como controle de pragas e melhoramento genético.

Além dos campos experimentais da Embrapa Cerrados, o princípe Naruhito esteve no Jardim Masato Kobayashi, inaugurado durante as comemorações do centenário da imigração japonesa, em 2008. O local é uma homenagem ao ex-coordenador administrativo da Jica que pediu que suas cinzas fossem depositadas nos jardim da Unidade. Kobayashi faleceu em 1981.

Ao final da visita da comitiva estrangeira, o presidente Maurício Lopes presenteou o secretário para Assuntos Agrícolas da Embaixada do Japão, Masao Mitsuhiro, com as duas publicações especiais editadas pela Embrapa, Flores Tropicais e Animais do Descobrimento.

 

Comunidade – Também como parte da agenda, no dia 18 o príncipe participou de uma recepção na Embaixada do Japão, em Brasília. Estiveram presentes politicos, autoridades e membros da comunidade nikkeis de várias regiões brasileiras (Distrito Federal, Sul do Brasil, São Paulo, São Paulo e Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro,  Nordeste, Belém, Manaus).

De São Paulo, estiveram presentes, entre outros, a presidente do Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social) e da Comissão para Comemoração dos 110 Anos da Imigração Japonesa no Brasil, Harumi Goya; o presidente do Comitê Executivo da Comissão, Yoshiharu Kikuchi; o presidente do Kenren (Federação das Associações de Províncias do Japão no Brasil), Yasuo Yamada; o presidente do Enkyo (Beneficência Nipo-Brasileira de São Paulo), Akeo Yogui; o presidente da Fenivar (Federação das Entidades Nikkeis do Vale do Ribeira), Toshiaki Yamamura; o presidente do Conselho Deliberativo da Uces (União Cultural e Esportiva Sudoeste), Yasuhiro Fukuju; o presidente da Federação das Associações Nipo-Brasileiras da Noroeste (Setor 3) e presidente da Associação Cultural Nipo-Brasileira de Guaraçaí, Shoji Korin; o presidente da Associação Brasileira de Ex-Bolsistas do Gaimusho Kenshusei, Marcelo Hideshima; a presidente da JCI Brasil-Japão, Patricia Murakami; o gerente de operação da Japan House São Paulo, Claudio Kurita; o presidente da Asebex (Associação Brasileira de Ex-Bolsistas no Japão), Felipe Takashi Rios Hokama; o ministro aposentado do STJ, Massami Uyeda e o presidente do Ciate (Centro de Informação e Apoio ao Trabalhador no Exterior), Masato Ninomiya, além dos deputados federais Walter Ihoshi (PSD-SP), Junji Abe (PSD-SP) e Keiko Ota (PSB-SP).

 

Emoção – Divididos em 9 grupos, os participantes – cerca de 50 – tiveram cerca de um minuto para conversar com o futuro imperador do Japão – a abdicação do imperador Akihito, de 84 anos,  a primeira a ocorrer no Japão em mais de 200 anos, desde a do imperador Kokaku em 1817, está marcada para o dia 30 de abril de 2019.

Claudio Kurita, que já havia estado com o príncipe em 2008, considerou este novo encontro “emocionante”. “Ele me perguntou três pontos, basicamente: se estava acontecendo muitos eventos na Japan House, a quantidade de público e a importância desse projeto para o Brasil”, explicou Kurita.

Quem também comemorou a oportunidade foi a presidente da JCI Brasil-Japão, Patricia Murakami. “Poder participar da recepção foi a experiência de uma vida. Nunca em minha existência pensei que teria a oportunidade de estar tão próxima dele, e mais ainda, que fosse cumprimentá-lo com um aperto de mão”, destacou Patrícia, afirmando que “a experiência foi ainda mais especial, pois tive a oportunidade de comentar sobre o trabalho da JCI Brasil-Japão”.

 

Príncipe Naruhito participa do Fórum Mundial da Água.
Foto: José Cruz (Agência Brasil)

 

Belo trabalho – Segundo ela, Naruhito perguntou sobre a quantidade de associados e tipos de projetos desenvolvidos. “Comentei que atualmente somos 56 associados jovens, de 18-40 anos e focados no desenvolvimento de projetos sociais, como por exemplo o projeto de inclusão digital da terceira idade e organização de mutirão de limpeza na cidade de São Paulo, entre outros”, contou.

“Ele nos parabenizou e pediu que continuássemos com o nosso belo trabalho”, disse Patrícia, que assumiu a Presidência da JCI Brasil-Japão em fevereiro deste ano.

Para o ministro aposentado do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Massami Uyeda, “estar na presença do príncipe herdeiro do Trono Imperial do Japão, já na iminência de tornar-se imperador, ante o comunicado de que Sua Alteza Imperial, o imperador Akihito, em breve, renunciará ao trono, em razão de problemas de saúde, é motivo de muito orgulho para um ‘nissei’, filho de imigrantes japoneses que aqui chegaram há exatos 101 anos”, disse Uyeda, lembrando que sua família por parte de mãe, vindo de Saga-ken,  desembarcou em Santos, no ano de 1917.

 

Privilégio – Primeiro nikkei a alcançar o cargo de ministro do STJ, Uyeda disse que se considera “uma pessoa privilegiada”. “Em 1971 estivemos com o então príncipe Akihito, no Palácio Imperial, em Tóquio, como membro do Gaimusho Kenshusei, e, em 1978, tivemos a oportunidade de reencontrar o príncipe Akihito, no Palácio dos Bandeirantes, quando de sua visita ao Brasil. E, em 2008, por ocasião da comemoração do Centenário da Emigração Japonesa para o Brasil, estivemos na recepção oficial no Hotel Okura, em Tóquio, com o atual imperador Akihito e também com o príncipe Naruhito”, lembrou o ministro, que foi agraciado pelo governo japonês com a Ordem do Sol Nascente, Estrela de Ouro e Prata.

“Em todas estas ocasiões, apesar da rigidez do protocolo, pudemos trocar breves palavras e, da parte de suas Altezas, o que nos impressionou foi o grau de conhecimento da realidade brasileira”, disse, acrescentando que, com relação ao príncipe, como membro honorário da Comissão de Festejos da Presidência da República para as festividades do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, esteve com Naruhito em 2008 em 8 ocasiões (4 almoços e 4 jantares).

“Assim, no domingo dia 18 de março de 2018, apesar do rígido protocolo, sorridente, o príncipe fez questão de cumprimentar a cada um de nós, que formávamos o Grupo 9 com um forte aperto de mão, o qual ficou mantendo por todo o tempo (cerca de um minuto), em que os cumprimentos foram trocados”, lembrou Uyeda.

 

Representantes da comunidade nikkei durante recepção ao príncipe na Embaixada.
Facebook: Claudio Kurita

 

Aperto de mão – “Quando da minha vez, também Sua alteza dirigiu-se a mim, com um aperto de mão e nos fizemos nossa apresentação, dizendo nosso nome e nosso cargo. Feito isto, em complemento, pudemos rememorar a satisfação do reencontro e externar nossa satisfação de encontrá-lo em boa forma e recomendar-lhe votos de vida longa e saudável para ele e também para sua família. Pudemos perceber que ele estava feliz com o reencontro, porque seu semblante assim o expressava. E, na despedida, os acenos e as inclinações recíprocas”, concluiu Uyeda.

 

(Aldo Shiguti, com informações da Agência Brasil)

 

ALDO SHIGUTI

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ashiguti@uol.com.br
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