CANTO DO BACURI – Francisco Handa: O homem do vigésimo sétimo andar

 

 

– Bom Dia – disse para a mulher que levava a filha ao colégio. A menina devia ter uns quatro anos, metida num avental cor de rosa, com inscrições em marrom, algo como “Jardim do cavalo marinho”.
Bom Dia – repetiu, quase automaticamente.
Depois vieram outros, o Afonso, um negro simpático, cuja arcada dentária parecia mais branca naquela manhã. Dizia trabalhar por conta própria numa distribuidora de água potável. Entrou correndo no elevador Joana, que era enfermeira e cuidava de pessoas idosas. No momento, estava a serviço de uma mulher de oitenta anos, judia, que quando enfurecia-se passava a praguejar em língua desconhecida. Naquela rotina, o “bom dia” soava agradável, entre pessoas às vezes estranhas. Muitos ingressavam naquele condomínio, ficavam por algum tempo, e assim que a amizade se tornava mais acalentada, não sei porque cargas d’água, de­sapareciam. Pessoas discretas, poucos eram proprietários.
Pela tela, os moradores se tornavam artistas para a segurança, que localizava-se na recepção. Era de lá mesmo que comumente, o porteiro anunciava, para um, para outro, a chegada de alguma encomenda especial. “Oi Fernanda, passa aqui, tem um pacote para você”. Parava então no térreo, atrás de si, outras tantas, que continuavam em direções diversas. Alemão era o porteiro, que nada tinha de germânico, nem mesmo o sotaque, que carregava nas de­clinações do interior da Paraíba. Chamavam-no assim devido a sua pele branca, melhor dito, era albino. Era ele que passava o pacote fechado em cujo conteúdo: remédios de uma farmácia de manipulação.
A conversa era sempre breve nestes encontros no elevador. Naquele prédio havia três, sendo que um era de serviço, em que os faxineiros levavam baldes de água e detergente para a limpeza dos corredores. Se quisesse arriscar, ficava por conta do próprio morador. Seria transportado também ao lado de sacos de lixo, imensos de 100 litros. Nada muito interessante, se comparado com os sacos de plástico de um certo vizinho que, em torno de duas vezes por semana, alinhava pelo corredor pouco mais de dez sacos devidamente amarrados pela boca. Que poderia ser aquilo? Ninguém tinha nada a ver com isso, assim os sacos desapareciam, não se sabe, para dentro do apartamento ou num desses elevadores após as 22 horas.
Havia o homem de cerca de cinqüenta e cinco anos, de origem oriental, supostamente japonês, que morava naquele condomínio. Era sozinho. Sempre muito bem vestido, de preferência esportivo, com camisas de gola olímpica e calças feitas sob medida. Sempre na parte da manhã, às 7 horas, ele deixava a moradia e confundia-se na multidão das cercanias da rua Augusta. Voltava depois das 18 horas.
Entre os moradores antigos ele era bem conhecido. Chamavam-no de Senhor Junichiro, que os outros achavam difícil de pronunciar, por isso era apenas “seo Juni”. Antes de subir ao apartamento, passava pela recepção e recolhia as correspondências, muitas em envelopes com inscrições em caracteres incompreensíveis. Nem mesmo o correio poderia decifrar aqueles signos. Mas chegavam ao destinatário. (Só podia ser dele). Tanto que, assim que tais correspondências eram entregues na portaria, o porteiro deixava de lado para o “seo Juni”.
Ninguém sabia a seu respeito. Nem era ele alguém que pudesse despertar qualquer dúvida sobre sua índole. Falava português com regularidade, que demonstrava ter domínio da língua. Comunicava-se bem e se comportava de maneira educada. Tinha os cabelos brancos, um tanto longos na parte dianteira, que ele com maestria jogava para o lado, mas ao abaixar sempre caíam. Era apenas um dos moradores naquele condomínio, cuja vida menos importava para os vizinhos e funcionários, numa relação amigável e tanto impessoal.
Talvez ele fosse aposentado, tivesse trabalhado em multinacional japonesa do setor ele­trônico, instalado por aqui na década de 70. Era uma possibilidade. Certa vez ele desceu do prédio com uma caixa de cds, com gravações de óperas italianas, estas comuns como Madame Butterfly, de Puccini. “Nossa, o senhor tem gosto apurado”, adiantou-se Américo, um advogado que trabalhava no Tribunal Regional do Trabalho, na Rua da Consolação. Riu e tentou desconversar. “Nada especial, apenas um passatempo”.
Numa conversa anos antes, o “seo” Juni, naquele mesmo elevador, teria dito que estudara literatura italiana na Universidade de Tóquio e que, um dia ainda, depois de encerrar as suas atividades profissionais, voltaria para o Japão e poderia assim dedicar-se ao que mais gostava de fazer: lecionar italiano. Confidenciou também que lera a Divina Comédia no original e também fascinado por Luigi Pirandello. Nenhum desses sonhos acabou realizando.-se Por algum motivo, ou sem ele, os planos mudaram.
Muitos foram os empregados da portaria, que depois de três anos, um pouco mais ou menos, eram dispensados pela síndica. Um destes, empregado de confiança da síndica, acabou passando uma informação cara demais para um inquilino, que arrematou um apartamento com preço baixo. Ela se sentiu ultrajada pela iniciativa do porteiro, pois ela própria se mostrava interessada no negócio. Fatos como estes demonstrava as transformação em que passava entre os funcionários, inclusive com a própria síndica, que morreu sem amigos em sua despedida num leito do pronto-socorro. Ninguém fora convidado para o ato fúnebre, além de suas duas irmãs solteiras, ela própria viúva.
Por tais acontecimentos, poucos eram os que intrometiam na vida alheia, sendo que na de “seo” Juni, não se sabia muito. Ele sempre mantivera certa dis­tância no que dizia respeito a assuntos pessoais. Pelo que sai­ba, visitas também não eram comuns em sua casa, mesmo do encanador, do homem da tv.
Nem por isso, nada disso, parecia incomodar alguém, levando-se em consideração o alto nível de ocupação daquele condomínio. De estranho, se este era a palavra a ser considerada, muitos outros tinham motivos maiores para comentários. No décimo andar o Lúcio Henrique, com suas tatuagens escorrendo pelos braços, dentes afiados de um demônio azul e vermelho prontos a estraçalhar o primeiro desafeto. Sem falar na Andréia de Freitas, que fabricava suas poções mágicas, unguentos amorosos, pestanas de sapo, antenas de lacráia ou coisa que o valha. Muitos estranhos, por outro lado, aceitos como vizinhos toleráveis e, por que não dizer, divertidos por suas manias e neuroses.
Numa dessas ocasiões, próximo à entrada do prédio, alguém chamou o “seo” Juni ao canto e entabulou uma conversa. Muito a vontade, o outro parecia conhecê-lo bem, não se sabia se morador ou não. Do outro lado, o segurança ouvia sem grande interêsse. Pelo que ficou na conversa, “seo” Juni morava no estabelecimentos há mais de vinte anos, no vigésimo sétimo andar, no número 273. Só ficou uma dúvida: não existia aquele andar no prédio. Tinha apenas vinte e seis andares, sendo que no suposto vigésimo sétimo era uma área que apenas abrigava a casa do zelador. Ninguém mais vivia lá. Mesmo assim, todos os dias o “seo” Juni, descia de seu apartamento, que ficava naquele andar? Somente ele conseguia chegar até nele. Poderia parecer estranho, mas não o suficiente para incomodar quem quer que fosse. Não era problema, desde que ele continuasse pagando o condomínio e não se intrometesse vida alheia. Menos isso, menos isso.

 

(Francisco Handa)

Redação

Redação

nippak@nippak.com.br
Redação

Últimos posts por Redação (exibir todos)

Related Post

JOJOSCOPE: HALLOWEEN JAPAN Na meca dos cosplayers e dos yôkai, os fantasmas japoneses, só podia dar nisso. Um desfile de horrores de arrepiar os cabelos de qualquer careca. Acon...
JORGE NAGAO: Kashima e Feliz 2017?   Kashima, nada será como Antlers!   O Kashima Antlers começou o Mundial da Fifa batendo o Auckland City por 2x1, gols de Akasaki e K...
AKIRA SAITO: UTILIZANDO OS PONTOS CONTRA “Ninguém chega a seu objetivo passando apenas por bons momentos”   Continuando com o assunto da semana anterior, muitas pessoas iniciam o ano...
CANTO DO BACURI > Francisco Handa: O lobo e o filh... Muito estranho é quando um aventureiro assassino percorre o Caminho do Inferno – Meifumado – levando consigo o filho de três anos, como que este tives...

Faça seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *