CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Entre as divagações | Ao pentear os cabelos | As águas a correr para o mesmo lado

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Entre as divagações

 

Em que casa haverá água

Para lavar o barro em meus pés

Que por caminhar pelas veredas da alma

Acabou por se sujar

Uma alma pequena, uma desgarrada bexiga de ar

Perdida acima das lanças de um cercado

Que cerca a casa do lado.

Uma fraqueza ainda assola a epiderme

Que sofre de uma alergia que degenera

As células mortas

De um passado que ainda nos assombra

Como os fantasmas sem existência a

Levantar os pelos pubianos de nossa vergonha.

Quando a noite abaixa as cortinas de um palco

Nenhum espetáculo mais acontece

Ainda que nada tenha para ser mostrado

Chegam os ratos e que põem a roer molemente

O cálcio de nossos ossos deixando-nos ao relento

Anêmicos de nosso desânimo momentâneo.

O dedo apontado é tiro certeiro de um rifle

De tocaia, que oculto nas folhas espera pelo momento

Certo para que a trovoada faça soar nas paredes de um vale

Uma revoada de pássaros pretos de asas tortas.

Quando acontecer manterei a cabeça levantada

Sem cair para a direita nem para a esquerda

Exibindo apenas a elegância do quepe posto de lado

Um brilho nos olhos suave

A Estrada de Santiago num fado cantado

Numa cantina a beber o liquido do vinho

Com pão e azeite.

 

 


 

 

Ao pentear os cabelos

Quem me vislumbra pela manhã

A mesma cara de sempre

Um tanto mudado

Me diz “Bom dia”.

Imita os meus gestos minhas manias

Meus defeitos que somente você aponta

Como pode ser tão cruel?

A quem nunca encontrarei

Senão diante de mim pela manhã

Às vezes carrancudo ou vezes não

Ainda que não queira estará em minha frente

Me olhando se olhar em teus olhos

Mas desvio o olhar

Fingindo que você não está lá

E você fingirá também.

 

 


 

 

As águas a correr para o mesmo lado

Este rio que ninguém detém

Corre sempre na mesma velocidade

O Rio Ganges que ainda visitarei

Nunca se atrasa nem se adianta

Carregando corpos desfalecidos

Encoberto com mortalhas brancas

Que nasce a cada momento

Que morre a cada momento

Refazendo o ciclo constante da vida.

 

 

FRANCISCO HANDA

FRANCISCO HANDA

chicohanda@yahoo.com.br
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