CANTO DO BACURI – MARI SATAKE: A gata ouvinte

 

Feliz, vestida com muito esmero, ficou ali esperando ser chamada. Em outras ocasiões, ela acharia um martírio aquela espera. Mas daquela vez, não. Quando ouviu o seu nome sendo chamado, ela até pensou que poderiam demorar um pouco mais. Lentamente, se levantou e foi caminhando. Sentia-se, leve, muito leve, como uma pluma. Apesar de seus quase cinquenta quilos.

Naquela tarde, ela dançou sem se importar se estaria com os movimentos sincronizados ou não com o som dos instrumentos tocados ali no palco. Ela dançou como se sua dança e a música fossem a mesma coisa. Assim como os minutos de espera, também os minutos da dança passaram muito rápido. Por ela, ficaria dançando a tarde inteira. Terminada a apresentação, com os músicos dirigiu-se à plateia. Receberam aplausos, muitos aplausos.

Entre os espectadores, nenhum rosto familiar. Nem a irmã que há horas, dizia estar a caminho. Já não se importa. Em outros tempos, ficaria aborrecida.  Dirige-se ao camarim e enquanto tira o pesado quimono com seus adereços, recebe a mensagem da irmã. Chegou atrasada.

Ela e suas amigas de dança se reúnem para tomar um lanche. A irmã as acompanha. Cinco mulheres de meia idade, as quatro que se apresentaram e a professora. A irmã, ali junto, as acompanha. E observa.

No palco, nova agitação. É a hora do karaokê.

As pessoas vão chegando. Sobem ao palco e cantam. Ninguém parece se importar com aquilo. Lá embaixo, as pessoas nas mesas, comem, bebem e conversam. Vez ou outra, uma voz mais afinada se apresenta e as pessoas voltam seus olhares para o palco, logo retornam aos seus pratos e copos.

Por alguns instantes, ficam todas observando o homem cantando. As mulheres mais velhas citam o nome de certo cantor, a voz e entonação são idênticas à dele. A irmã, surpresa, reconhece o homem que canta. É senhor fulano. Aposentou-se na época em que entrei na empresa onde trabalho atualmente. Há dezoito anos! E agora canta.

Para contrapor, na seqüência, entra o casal gritante, ou melhor, a mulher gritante e o homem de voz rouca. A família aplaude.  A mais velha fala para a irmã: olha aí, se você quiser também, não tem problema é só chegar e cantar. Elas riem.

Ficam olhando e a mais velha diz: antes de meu marido levar embora o aparelho de karaokê, de vez em quando de tarde eu cantava. Era só começar e Maga vinha correndo para a sala. Ficava ali o tempo todo me ouvindo e olhando.

Uma das amigas quer saber quem é Maga. Rindo, a outra diz: Maga era a filhinha caçula dela. Todas riem. A que perguntou parece não entender porque todas riem. A irmã fala: Maga era a Gata Maga, a gata querida da família. Mórreu! Rindo, elas começam a se preparar para a despedida. Já dançaram, comeram, beberam e deram boas risadas.

 

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