CANTO DO BACURI > Mari Satake: Até quando?

Era uma vez um imenso país. Seu povo foi cantado como alegre e cordial. Uma grande mentira que os donos da Casa Grande – como diz o sábio editor que agora se cala – gostavam de cantar e contar. Cantaram e contaram tanto que muitos até acreditavam.   Mas quem tinha olhos para ver e pele para sentir, sabia. Aquela era uma grande mentira. O povo era desde sempre, massacrado e explorado. Como pode ser alegre e cordial um povo massacrado? Viviam para dar a força de seu trabalho para os donos da Casa Grande. O rendimento de seu trabalho sempre mal pagou seu pão e leite de cada dia. Seus filhos quando frequentavam a escola, muitas vezes, nem calçados tinham. E a escola era precária, diferente da escola do filho dos patrões. Ficar doente era um luxo que eles não podiam ter. Como pagar o doutor se o dinheiro que tinham mal dava para o pão de cada dia? Hospital público? Os governantes daquele país não se preocupavam com isso. Quando os filhos deles adoeciam, o doutor ia até suas casas. Então, para quê? Um luxo desnecessário.

Mas os governantes daquele país faziam de conta que a escravidão tinha sido abolida. E até tinha sido mesmo! Foi um dos últimos países a abolir a escravidão, mas aboliu. No papel.

O país era imenso. Dotado de muitos recursos naturais. Fonte de riquezas para os donos da Casa Grande. O mundo lá fora evoluía. Ali, naquele país também era preciso fazer evoluir tudo. Então, houve um governante, até hoje, digno de estudos. Este governante, a despeito de muitas contestações e inimizades, introduziu mudanças no país. Instituiu um valor mínimo mensal para o trabalhador, criou regras e dispositivos de proteção ao trabalhador, instituiu a obrigatoriedade do ensino fundamental a todos, instituiu o voto feminino entre tantas outras coisas boas para o país. É claro, que como sempre, muitos patrões, fizeram o diabo para tornar a vida daquele homem um inferno. E ele não resistiu. E assim, depois de alguns anos promissores à classe trabalhadora, o país voltou a viver dias sombrios. Mas, as medidas protetoras que ele instituiu aos trabalhadores, permaneceram. Tiveram a decência de mantê-las.

Aos trancos e barrancos a população sobreviveu. Com sonhos e esperanças, acreditando que um novo país seria possível. Tanto acreditou que conseguiu alçar à presidência do país, um homem como eles. Um homem do mundo do trabalho. Vindo da mais humilde das camadas sociais que ainda habitam no país. E foi este homem que por dois mandatos seguidos conseguiu tirar da fome e miséria milhares de seres, foi também ele quem possibilitou o acesso a universidade para centenas de jovens, filhos das camadas mais pobres da população. E este homem conseguiu eleger sua sucessora. E esta sucessora se reelegeu. Com 54 milhões de votos.  Com ela, concorreu um filhinho de papai. Ao ser derrotado, prometeu. Faria de tudo para “quebrar” o país até “derrubar” a presidenta eleita pelos 54 milhões de votos legítimos. E o filhinho de papai fez o que fez. A ele se juntou um bando, uma corja de homens nada defensáveis. Como resultado daquela promessa, o usurpador tomou posse da cadeira.

E desde então, a cada dia um acontecimento espetaculoso é revelado. Enquanto a população sofre com o desemprego e falta de dinheiro para honrar seus compromissos de sobrevivência, milhões são revelados como resultado das negociatas corruptas do bando do usurpador. Indecentes e desavergonhados.

Até quando?

 

MARI SATAKE

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