CANTO DO BACURI – Mari Satake: O casaco de tranças

 

Apressada ela sai da estação de metrô. Ouve uma voz que a chama por trás. Ela se volta. O reconhecimento é imediato. Elas se abraçam. No meio do entra e sai da estação, elas ficam. Atrasadas que ambas estavam para seus compromissos, não se importam. Pelo menos um pouco elas precisam se falar. Fazem suas quase confidências, ali mesmo. Trocam seus números, combinam de se encontrarem no próximo sábado. Reservarão seus dias somente para elas. Nada de almoço para marido, filhos, nem netos. Esgotados os repertórios e as inúmeras promessas para o feliz reencontro, elas se despedem. Ela, em direção às ruas do bairro. A amiga, em direção ao interior da estação.

Um pouco mais atrasada que momentos atrás, ela já não tem tanta pressa. Telefona ao amigo que a espera e diz que está chegando. Devagar caminha pelas ruas do bairro onde morou logo que chegou à capital. Estudavam ali perto, naquele antigo e imponente colégio. A amiga morava na rua de cima, ela umas dez quadras adiante.  Faziam o último ano do colegial de manhã e de tarde iam para as aulas do cursinho. Entre as aulas do colégio e as do cursinho, passavam em suas casas para almoçar e alguns minutos mais tarde, voltavam a se encontrar, às vezes ainda no ônibus a caminho do cursinho, às vezes já na sala de aula. Sentavam-se juntas, uma sempre guardava lugar para a outra. Às vezes, a mãe da amiga mandava o recado. Então, lá ia ela desfrutar de uns poucos momentos de convívio familiar e almoçar a comida quente, recém saída do fogão. A mãe da amiga dizia achar uma judiação, ela tão novinha tendo que improvisar o próprio almoço ou então almoçando aquelas comidas sem graça da pensão onde ia almoçar quando não havia comida pronta em sua casa. Ela achava graça e nem era nada demais. Mas achava muito bom quando, de manhã no colégio, na hora do intervalo a amiga chegava dizendo qual seria o cardápio do almoço e a mãe esperava por ela.

No final do ano, foram prestar vestibular para cursos diferentes. Mesmo cursando faculdades diferentes, elas continuaram se falando e se vendo. Eram amigas. E amigas continuaram por muitos anos.

No inverno, a cada inverno, a amiga sempre tinha algumas novas blusas de lã tricotada por ela mesma ou pela mãe. Um dia a amiga apareceu com uma blusa toda colorida e ela que desde sempre gostou de roupas multicoloridas, se encantou e quis igual. E ganhou. A amiga se ofereceu a confeccionar desde que ela comprasse as lãs. No dia seguinte lá estava ela na porta da casa da amiga com o dinheiro na mão. Dali um tempo, outra vez, ela quis outra blusa. Daquela vez, era um casaco todo trançado. Pediu à mãe da amiga que lhe fizesse, ela pagaria pela lã e confecção. A mãe da amiga disse que não, apenas tricotava para si própria, seu marido e seus filhos, jamais pegaria encomenda. Ela ficou triste, amuada, nem o cafezinho da tarde ou o bolo quis experimentar. Só não chorou porque sempre teve muita vergonha de chorar. A mãe talvez comovida pela tristeza chamou-a e sorrindo disse ter mudado de idéia. Tricotaria para ela um casaco muito lindo com todas as tranças que ela tivesse direito, na lã e na cor que ela quisesse. Tinha uma condição, ela teria que também aprender a tricotar. Ao ouvir isso, ela parecia não acreditar no que ouvia e feliz quis saber se poderia começar no dia seguinte. Mas já amanhã você quer começar? E assim no dia seguinte de tarde lá estava ela com as lãs e agulhas que comprou com a orientação da amiga.

Anos mais tarde, ela ficou sabendo que logo depois da primeira aula, a mãe da amiga fez um comentário que apressaria seu trabalho que estava em andamento para começar a tecer logo a blusa prometida. Tinha suas dúvidas se a menina conseguiria fazer o colete que pretendia. Ela apertava tanto a lã que a mãe achou que não sairia daquilo, daqueles pontos iniciais. Para sua surpresa, a menina treinou tanto que seu ponto ficou solto, leve e uniforme. Usou o colete naquele inverno mesmo. E em seguida, antes que o seu esperado casaco de tranças ficasse pronto, começou a tricotar um pulôver para si. Pulôver que levou anos para terminar. Quando a mãe da amiga perguntava pelo pulôver, rindo, ela dizia que terminaria no próximo inverno e como a dizer que não precisava mais do pulôver, colocava as mãos no bolso do seu casaco de tranças que a mãe da amiga havia tricotado para ela.

Um dia, o pulôver ficou pronto e imediatamente ela o levou a casa da amiga. Rindo, as três, ela, a amiga e sua mãe começaram a falar daqueles bons e velhos tempos.

 marisatake@yahoo.com.br

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