CANTO DO BACURI > Mari Satake: Quase trinta anos depois

canto-do-bacuri-makiÉ domingo. Trôpega e lentamente ela caminha pelo estreito corredor. Não tem pressa. Ninguém a espera. Voltou ao país apenas para cuidar do inventário do único irmão que lhe havia restado. Pega sua pequena bagagem e vagarosamente dirige-se à saída de onde partem os ônibus urbanos.

Olha no painel. Tem a sensação que são as mesmas as linhas oferecidas. Quase trinta anos que saiu do país e quando volta tudo parece estagnado, nenhuma linha nova. Olha à sua volta e tudo parece desbotado, sem vida. Bancos quebrados. Moscas voejam.  Vasos sujos, plantas esturricadas, cheias de pó. Se fossem plantas verdadeiras, estariam mortas há muito tempo. Fica ali parada esperando pelo ônibus que a levará à região da Paulista.

Tem saudades dos velhos tempos. Fica imaginando como estará a velha avenida de sua juventude, dos anos de esperança. Foi ali que fez suas primeiras amizades assim que veio do interior para estudar na capital. Desde sempre, caminhar pela Paulista sozinha ou com alguém de suas relações, fazia parte de seu repertório.

À medida que o ônibus se aproxima da parada onde ficará, sente certo aperto no coração. Lembra-se dos últimos tempos no país. A avenida que se transformara palco das grandes manifestações, cada vez mais ocupada pelos sem emprego, depois pelos sem teto. Como estará ela agora? Com o coração apertado, pega sua pequena bagagem, desce as escadas do ônibus e começa a caminhar. Levemente atordoada, não reconhece de imediato qual direção tomar.

Aos poucos, vai se situando. Decide tomar o rumo da avenida e caminhar por ela, antes de se dirigir ao hotel. Procura pelas horas. Seis horas da manhã. Nenhuma viva alma andando pelas calçadas. Apenas policiais armados nas esquinas. Vê montes escuros. Não acredita. Mas é isso mesmo. Pessoas dormem enroladas em cobertores imundos. À medida que anda uns e outros vão acordando. Ela se assusta com seu medo. Aperta o passo. Pensa em pegar um táxi. Na avenida, nada que se pareça com os antigos táxis de suas lembranças. Apenas longos e escuros ônibus articulados, lotados. Ela estranha. Nos domingos, logo cedo, não era comum ônibus lotados. Naquela região, menos ainda.

Olha para os prédios. Muitos deles cercados com altos e pesados muros com portões que quase não se distinguem, salvo, pelos imensos homens de preto postados ao lado dos mesmos. Outros, sem muros nem grades, abandonados. Como os antigos prédios do centro da cidade, dos tempos em que aqui morava.

Assustada e sem alternativas, ela caminha. O hotel fica a dois quilômetros dali. Sente sede. Nenhuma padaria ou lanchonete onde possa se abrigar.

Lembra-se da cidade dos últimos tempos em que aqui morava. Ao longo de toda a rota por onde caminha, havia a ciclovia. Nas manhãs de domingo, era comum ver famílias inteiras passeando com suas bicicletas nas manhãs de domingo. Agora, da antiga ciclovia, apenas um resto de tinta vermelha em alguns poucos pontos. Será possível? Vestígios da antiga ciclovia?

Conforme vai se aproximando do bairro onde morava, lembra-se dos pés de ipê rosa. Nenhum sinal das antigas árvores. Apenas um imenso estacionamento abandonado, também ocupado por pessoas que ainda dormem enroladas em seus cobertores. Aqui ela vê crianças. Cabelos desgrenhados, maltrapilhas, com os pés descalços. Ao vê-la, correm em sua direção. Pedem dinheiro para comprar leite para o irmãozinho.

Ela já está bem perto do hotel. Decide mudar seus planos. Descansará um pouco e nada de passear pelo bairro oriental.  Fará a reserva para o voo da tarde. Quer resolver tudo o mais breve possível. Saudosa e esperançosa, ela se pergunta se ainda encontrará o velho pé de flamboyant na praça da cidade de sua infância.

 

MARI SATAKE

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