ERIKA TAMURA: A apresentação da realidade da comunidade brasileira à comitiva no Japão

No mês passado, o Japão recebeu uma comitiva de políticos brasileiros, que vieram a convite do governo japonês para fortalecer os laços entre Brasil e Japão.

Pois bem, fui convidada para estar presente em uma reunião no Consulado Geral do Brasil em Tóquio, ode foi brevemente colocado em pauta a real situação dos brasileiros que vivem no Japão.

Como estávamos ali para falar sobre problemas, então o tema do artigo dessa semana será em torno dos problemas. Claro que existe o lado positivo também, mas não foi abordado nessa ocasião, pois temos que aproveitar a oportunidade para as reinvindicações prioritárias para a nossa comunidade, desde que esteja ao alcance dos políticos brasileiros.

Todos sabem que a situação atual política no Brasil não está nada bem, totalmente desestruturada e dilascerada, chega a ser um paradoxo, tentar pedir alguma coisa.

Mas mais do que pedir, reinvindicar, exigir algo, temos que primeiramente mostrar a realidade, principalmente para quem estava no Japão pela primeira vez, e não tem nenhum contato com a cultura nipônica.

A verdade é que foi falado sobre a atual situação econômica do Japão, onde o mercado de trabalho está aquecido, e a mão de obra estrangeira torna-se essencial para suprir a grande demanda de trabalho. Mas com todo esse fervor de serviços, o dia a dia, acaba sendo sarcástico. A vida cotidiana no Japão é puxada e dura. E a vida dos brasileiros se tornam muito propensas e vulneráveis à doenças emocionais. Mas a grande preocupação no meu ponte de vista, e a que chamou mais a atenção dos políticos brasileiros, foi quando citei a realidade de muitas crianças brasileiras.

A educação é algo que me preocupa e muito, se pudesse eu me dedicaria apenas nessa área, mas a ONG que trabalho tem atuação em várias áreas, e é muito ampla as suas atividades. Tento me dedicar mais aos assuntos sobre educação e crianças, jovens e futuro… Como sou mãe, esse é um assunto que me toca particularmente.

O número de crianças brasileiras autistas tem aumentado numa proporção totalmente fora da realidade de qualquer sociedade. Mas dá para explicar: As crianças brasileiras acabam indo para uma escola japonesa, como um último reurso dos pais, pois as escolas brasileiras são muito caras, e na maioria das vezes, a criança entra de uma vez, sem nenhum preparo para estar ali, e realmente é um choque cultural, ambiental, linguístico e psicológico para qualquer ser humano. Imaginem a cabecinha dessa criança, foi tirada do Brasil, de uma escola onde ela já estava habituada, com os amigos que ela estava acostumada e com professores que ela confiava, e de repente a mudança para o Japão. Ninguém perguntou se ela queria ir, ninguém sequer deu uma opção de escolha, ela simplesmente muda de país, e é matriculada em uma escola japonesa, onde a disciplina impera, com uma língua totalmente diferente, e no meu ver, o maior choque é cultural. Claro que no primeiro momento a reação da criança é de introspecção. Se até mesmo os adultos sofrem para acostumar no Japão, imaginem as crianças.

E assim, muitos professores japoneses, que não possuem a didática e o preparo para lidarem com essa situação, simplesmente carimbam um documento onde essas crianças são taxadas como autistas, e que a partir daquele momento, terão que frequentar uma escola especial.  Ou seja, a criança, é taxada como deficiente, incapaz de frequentar aquela escola, carregará para sempre esse diagnóstico que foi feito de forma totalmente precipitada.

Eu, como mãe, me sentiria desesperada e perdida numa situação dessa, mas a falta de informações, faz com que os pais acabem aceitando esse diagnóstico. E vou além, muitos pais aceitam também, porque existem benefícios financeiros do governo japonês para quem possui um filho deficiente. Isso é justo?

São problemas onde as consequências serão vistas a longo prazo, mas poderá ser catastrófico.

O autismo no Brasil, é muito difícil de ser diagnosticado, tem que ser feito uma série de exames e testes até chegar à conclusão final. E como, aqui no Japão, dão poderes para que um professor faça esse tipo de diagnóstico? Temos que pensar em soluções para salvarmos esse tipo de situação ocorrente na comunidade brasileira.

A impressão que tenho é que poderá sair daqui dessa comunidade, adultos depressivos.

Expliquei para a comitiva política, a importância de termos aqui no Japão, profissionais capacitados para ajudarem nos diagnósticos. Desde psicólogos, fonoaudiólogos e psiquiatras. Mas nos falta recursos financeiros. O importante é que o problema está na mesa e a ajuda na solução foi lançada.

É muito delicado falar sobre tudo isso, pois recebo muitas críticas, principalmente de quem mora no Japão. Será que as pessoas não enxergam o mundo em que vivem? Ou acham que eu escrevo tudo isso inventando dados, ou construindo uma história fictícia? Não perceberam que não adianta espernear, esbravejar e me xingar na internet, quando estou apenas relatando o que vejo, baseado em pesquisas e dados, captados diretamente da fonte. Até fui chamada de racista! Racista, por que? Por falar a verdade?

Vamos parar de querer filtrar a realidade, e achar que aqui é o país das maravilhas, eu acho até que seja mesmo, desde que a saúde esteja 100%, não somente a saúde física, mas a mental também.

Já passou da hora de abrirmos os olhos e corrermos atrás de informações, a internet é uma ótima ferramenta para ser usada como apoio para o bem, ao invés de ser usada como uma ferramenta que destila o ódio. Os políticos vieram e alguns até me procuraram depois da reunião, e se mostraram verdadeiramente preocupados com essa situação.

O Japão é lindo, até falo para todos que vêm passear aqui. O Japão é fascinante, maravilhoso, mas quando se vive aqui, a realidade é outra. Portanto, vamos olhar para as nossas crianças com mais carinho e ir além disso, tentar buscar outros meios para que possamos mudar essa alta na taxa de autismo na comunidade brasileira.

 

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

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