ERIKA TAMURA: Vou para o Japão ou fico no Brasil?

Sempre acompanho as notícias do Brasil, pois me interesso por economia e política brasileira, tenho notado que o desemprego vem aumentando e consequentemente, a vida no Brasil tem se tornado cada vez mais difícil. O que percebi também é que, atualmente, o desemprego atinge o pai de família, e isso é triste. Eu me coloco no lugar desse pai, e é muito triste não conseguir dar uma vida digna aos filhos.

Por esse motivo, entre outros como segurança, educação, etc, a procura por um emprego no Japão tem aumentado consideravelmente. Quem pode vir ao Japão por ter descendência japonesa, e passa por dificuldade financeira no Brasil, tem buscado uma solução na vinda ao Japão.

Vale lembrar que, o Japão já não está mais no seu momento áureo, economicamente falando, o custo de vida é caro, e trabalha-se muito. Se mesmo assim, a família topar, serão bem vindos ao Japão, afinal, aqui emprego não falta, muito pelo contrário, existe uma carência de mão de obra, ainda mais na classe operária e na agricultura.

Tenho recebido muitos e-mails, mensagens e telefonemas onde as pessoas me perguntam a minha opinião, querem saber se realmente compensa deixar o Brasil e virem ao Japão. A minha resposta é “depende”. Porque depende mesmo, cada caso é um caso, eu não posso simplesmente dar uma opinião sem saber a realidade de cada um. O que eu digo é, pensem, coloquem tudo na balança, os prós e os contras. No Japão existe a segurança, o respeito, a educação, o emprego, mas em contrapartida, há muito trabalho, pouco tempo, a fase de adaptação é difícil, a distância  dos familiares, saudades… Enfim, “N” fatores que podemos discorrer sobre o assunto, para o bem ou para o mal. Mas eu penso que a vida é assim mesmo, cada escolha é uma sentença, não dá para ter apenas as vantagens, o pacote inclui muito mais, é o kit completo, alguma escolha terá que ser feita, e a cada escolha, algo ficará para trás, bem como uma vantagem que terá em mãos também.

O cuidado maior é quando a mudança do Brasil para o Japão, incluem-se as crianças. Geralmente os filhos não são consultados se querem morar no Japão ou não, os pais simplesmente avisam que tal dia, iremos nos mudar para o Japão. E essa informação gera uma confusão na cabeça de qualquer criança, tem crianças que ficam ansiosas, outras com medo, outras ficam felizes e tem aquelas que entram em pânico por criarem uma certa resistência a ideia de mudança. Mas em todos os casos, alguma mudança de comportamento a criança tem, pois não é uma decisão fácil, nem tampouco imune as consequências dessa decisão.

O que tenho notado, é que as crianças e os jovens brasileiros que vivem no Japão, sentem-se perdidas. Não possuem um referencial e nem uma perspectiva de futuro, e um dos motivos para isso é a falta de comunicação dos pais com os filhos.

Os pais dizem que vão para o Japão para uma temporada por tempo indeterminado, isso faz com que a criança se sinta insegura quanto ao seu futuro. Mas também falar que vão para uma mudança definitiva para o Japão, dá um baque na cabeça, as crianças acham que nunca mais vão voltar ao Brasil.

A melhor maneira, que eu encontrei para aliviar tudo isso, é fazer o que fiz com meus filhos, prepara-los para a vida, independentemente do lugar que estejam, eles sintam-se bem, e tentar amenizar ao máximo esse choque cultural que a mudança de país acarreta. Como isso é possível? Através do aprendizado do idioma local, uma vez que se aprende o idioma, a comunicação deixa de ser uma barreira e tudo passa a ser uma grande escola.

Os filhos são reflexos dos pais, eles absorvem exatamente tudo o que os pais são, e não exatamente o que eles falam. De nada adianta um pai que fala bonito fora de casa, e dentro de casa não pratica o que diz, os filhos não se importarão com o que ele fala, e sim, copiarão as suas atitudes.

Se hoje temos uma comunidade brasileira no Japão, onde as crianças e os jovens apresentam problemas, é porque os pais também demonstraram, em algum momento, esse problema que foi absorvido pelos filhos. Simples assim, mas extremamente complicada a resolução.

Por isso, não encorajo e nem desencorajo ninguém que esteja pensando em vir ao Japão. Eu espero de verdade, que todos pensem, mas pensem muito, pois em cada decisão, está embutida a vida de outras tantas pessoas a sua volta.

Cada um sabe o que é melhor para si. Se eu pudesse escolher? Escolheria morar no Brasil, claro. Amo o Brasil, mas confesso que não consigo. Primeiro, pela oportunidade profissional, não tenho mais idade para tentar, estou na idade de realizar, e depois porque eu já me acostumei no país onde tudo funciona, e funciona bem. O Brasil é excelente, mas as coisas não funcionam tão bem assim. Mas confesso que no fundo, ainda tenho uma esperança nesse país, tanto é que meus filhos estão no Brasil, se fosse um país onde eu não acreditasse totalmente, não deixaria que meus filhos estudassem no Brasil, e detalhe: em escola pública!

Precisamos nos despir de alguns estereótipos que carregamos, por exemplo, o Brasil não é de todo ruim, ainda existem lugares onde o SUS funciona,a escola pública é de qualidade, as pessoas são amigas, bem como, por outro lado, o Japão não é um paraíso, aqui trabalha-se muito, muito, muito… As prioridades consistem em trabalho e trabalho.

Como disse no começo do artigo, a resposta para cada pergunta que recebo, está dentro de cada um de nós. Só você saberá a resposta para cada pergunta. E quando temos filhos, tomamos decisões pensando nos filhos prioritariamente, mas não temos a certeza de estarmos acertando, sempre fica aquela duvidando pairando no ar, será que estamos fazendo certo?

Ninguém toma uma atitude pensando em prejudicar os filhos, por isso, tudo o que for feito de coração, os filhos entenderão e reconhecerão, simplesmente por verem que essa decisão foi feita para o bem deles.

 

ERIKA TAMURA

ERIKA TAMURA

nasceu em Araçatuba e há 18 anos mora no Japão, onde trabalha no Serviço de assistência aos brasileiros no Japão da Ong chamada Sabja

E-mail: erikasumida@hotmail.com
ERIKA TAMURA

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