JORGE NAGAO: Bento, o mamona nikkei

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Bento, o mamona nikkei

Os Hinoto, Shizuo e Toshiko com os filhos Shinji, Chikara e Tatsuo, saíram de Kagoshima e desembarcaram em Salvador-BA, em setembro de 1960.

Em 1963, nasceu Climério, o primeiro filho brasileiro. Mauricio, o quinto filho, chegou em 1968, nesse ano a família mudou para o bairro da Liberdade, em São Paulo. Em plena copa de 1970, nasceu Alberto, o caçula.

Albertinho, aos 6 anos, revelou-se um prodígio no origami. Depois venceu várias olimpíadas de matemática. Ganhou concursos de canto no Colégio Bonsucesso da colônia japonesa. Descobriu a sua vocação quando ganhou um violão.

Em 1986, dona Toshiko, viúva desde 1978, resolveu visitar os parentes no Japão e decidiu realizar o desejo de Albertinho. Voltou do Nihon com uma cintilante guitarra Yamaha com seis pedais. E Albertinho, claro, se yamahou, só largava a guitarra para dormir. Mas quando acordava já estava com ela, satisfeito da vida. De dia, trabalhava com o irmão Climério mas ficava o tempo todo no fundo da loja tocando a sua Yamaha querida.

Uma noite, em 1989, Mauricio, roqueiro, fã dos Ratos de Porão e Dead Kennedys, disse que seu colega Sergio, na Olivetti, era um baterista e queria formar uma banda. Deu liga. Nascia o trio Utopia: Sergio, na bateria, Samuel, no baixo, e Albertão, futuro Bento Hinoto, na guitarra.

Só o pessoal do Parque Cecap, um mega conjunto habitacional de Guarulhos, com 4620 apErtamentos, sabe o quanto o Utopia ralou, tocando em quermesses e bailinhos, quase de graça.

Em 1990, no fim de um show, alguém pediu “Sweet child of mine”, do Gun’n Roses. O baterista Sergio disse que só tocaria se alguém subisse ao palco para cantá-la.

– Eu, eu, eu! – gritou um cara alto que pegou o microfone com gana e gula, relata Eduardo Bueno, no livro Mamonas Assassinas Blá Blá Blá, da editora LPM. O cantor não sabia a letra mas era o rei do enrolation e arrasou ouvindo urros e aplausos ao fim de sua performance. Utopia ganhou o seu vocalista, o Alecsander, o Dinho, figurinha fácil do Cecap. Julio, o tecladista, completou o quinteto.

Veio 1991 e a banda Utopia tornou-se a favorita de Guarulhos. Em 1992, com músicas sérias e letras tristes, gravaram o disco Utopia. Das mil cópias, venderam só cem, doaram 800 e o pai de Dinho guardou as 100 restantes. Em 1993 e 1994, sem grandes novidades, o desânimo era geral. Dinho e seus amigos resolveram gravar, no estúdio do Rick Bonadio, duas músicas de sacanagem para se divertir: Robocop gay que cantava, de brincadeira, e Mina que mais tarde virou Pelados em Santos.

Para surpresa dos utópicos, o produtor Rick gostou e os chamou para conversar. Sugeriu uma mudança de ritmo em Mina, que lembrava Reginaldo Rossi, e que a banda adotasse o humor que era a cara deles, e exigiu um novo para a banda para fazer sucesso.

Houve uma certa relutância pois Utopia era famosa em Guarulhos mas diante da grande chance, eles se renderam. Rick fez uma fita demo com as novas versões e enviou ao amigo Sacomani, um produtor com trânsito pelas grandes gravadoras. João Augusto, da EMI, recebeu a fita e convencido pelo filho que a banda Mamonas era boa, resolveu ver um show deles para ver se eles eram bons de show.

A boate Lua Nua, de Guarulhos, foi o local escolhido para o show dos Mamonas Assassinas. E pra lá foram o produtor Sacomani e o manager da EMI, João Augusto.

Dinho e cia. entraram no palco de cuecas e LPs na cintura, menos o Bento que entrou com um compacto simples… O som contagiante e as letras irreverentes agradaram em cheio. A Utopia, finalmente, virou realidade. Assinaram o contrato e gravaram o segundo disco, como Mamonas Assassinas.

Rick mostrou o Vira para o empresário Samy Elia que garantiu que a banda seria um sucesso. E topou cuidar da carreira dos Mamonas. O grande momento dos meninos foi a participação no programa do Jô Onze e Meia, no SBT. Quando o gordo viu o Bento com cabelo rastafari, comentou: agora, só falta ter um negão vestido de samurai. rsrs. Dinho perguntou ao Jô se podia dar o telefone da banda. Após o sim do apresentador, tirou um aparelho de telefone fixo de uma sacola e entregou pra ele que mostrou ao Brasil: Sami chous 263-0493. No dia seguinte, aquele telefone tocou o dia inteiro. O país inteiro queria ver o show daqueles malucos.

Resumindo a história, fizeram 187 shows em menos de um ano, um fenômeno de vendas e audiência na TV jamais visto na MPB.

Voltaram de Brasília, do último show da temporada, pensando em gravar o segundo disco, Blá Blá, Blá. Mas naquele domingo, 03 de março de 1996, o avião, como todo mundo sabe, não chegou em Guarulhos.

The End.

 

JORGE NAGAO

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