JORGE NAGAO: Brasil do Norte e Brasil do Sul

Nesta segunda quinzena de março, o assunto dominante na mídia é o golpe de 64 (Revolução, para alguns). Diversos programas de TV, livros(destaque para Coleção Ditadura, quatro volumes, de Élio Gáspari), ensaios e reportagens abordam a efeméride que mudou o rumo do país. No pós-guerra, a guerra fria entre EUA e URSS levou à divisão de países como Alemanha, Vietnã e Coréia.

– Se o Jango, João Goulart, presidente da República em 1964, reagisse, hoje teríamos dois Brasis como Coreia do Norte e do Sul, Vietnã do Norte e do Sul. Já imaginou? Foi Saturnino Braga, ex-senador e ex-prefeito do Rio de Janeiro, que levantou esta hipótese na entrevista ao programa Brasilianas, da TV Brasil, apresentada por Luis Nassif.

Para justificar o golpe, caso o Brasil ficasse sob a tutela  da União Soviética,  “seria um Cubão”, referência à Cuba, segundo o  coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra,  em depoimento à Comissão Nacional da Verdade (CNV). Depois de passar por tantas coisas, ainda temos que ouvir isso.

O Brasil não se dividiu porque não houve confronto. O presidente João Goulart deixou o cargo, sem resistência, para evitar uma luta fratricida de consequências imprevisíveis, até de rachar o país ao meio, meio socialista, meio capitalista.

Se, hoje, existisse o Brasil do Norte e o Brasil do Sul, talvez não fôssemos pentacampeões do mundo porque Rivaldo e Dida e tantos outros craques teriam atuado pelo Brasil do Norte. E, nesta Copa, Hulk, Dante e Daniel Alves estariam defendendo as cores do Norte. Quais cores? Vermelha e mais qual?, caso a União Soviética ficasse com a parte de cima do Brasil.

Na música, o Sul  ficaria privado de artistas do porte de Alceu Valença, Fagner e Zé Ramalho. Haveria o Tropicalismo, movimento musical e artístico liderado pelos baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil? Luiz Gonzaga seria reconhecido no sul depois de 64? Na literatura, teríamos pouco acesso aos grandes como João Cabral, Graciliano Ramos, Ariano Suassuna, Milton Hatoum e Marcio Souza.

O carnaval do Norte seria  bem mais animado, como é hoje, do que o do Sul que tenta renascer com os blocos. Sem falar nas lindas praias nordestinas onde é verão o ano inteiro. Se o sulista não pudesse viajar para o Norte/Nordeste, obviamente, gastaria muito mais indo pro Exterior.

Na política, sem Lula, que chegou ao ABC depois de 64, o Brasil do Sul seria completamente diferente. Ele seria presidente do Brasil do Norte disputando  com Sarney e Collor? Como seria o Brasil do Sul se Serra tivesse chegado lá? Haja imaginação, não é mesmo?

Cenas comoventes, como vimos há poucos dias, do encontro consentido entre familiares da Coreia do Sul com a do Norte, poderiam estar acontecendo em  nosso Brasil caso fosse dividido, em 1964. Nortistas e nordestinos se abraçando depois de 50 anos, dá para imaginar?

Meio século depois, menos mal que o nosso Brasil não se dividiu e hoje é a sexta economia do mundo.  Vivemos numa democracia apesar de ter uma mídia, dominada por poucas famílias, tentar interferir na Justiça e noo resultado das eleições. Viveremos grandes momentos neste ano, com a Copa e eleições gerais. De norte a sul, boa sorte, Brasil!

 

 

Jorge Nagao

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