JORGE NAGAO: Noites de Luz

!cid_ii_14a34b8dcdf53277(Susumu Yamaguchi)

A meia-noite alcançou-nos na subida da Rua da Consolação, em frente ao cemitério. Porém, ao contrário das histórias que nos assombravam e fascinavam desde a infância, não morremos de medo e nem passamos a correr insanamente; mas também não nos tornamos tão corajosos a ponto de enfrentar espectros e nem perdemos as maravilhas da fantasia. Apenas continuamos a correr, só que mais leves: os sons que encheram o ar naquele momento falavam da passagem do ano. Abraços e saudações multiplicaram-se entre desconhecidos que corriam juntos e que se reconheciam no asfalto como companheiros de longas jornadas. Ao fundo, alheio a rojões e profusões, um silêncio benevolente pairava além do muro e era testemunha de uma renovação de vida.

Antes, um outro silêncio – o das catedrais – nos contemplara do alto de suas torres. Havíamos largado da Avenida Paulista às 23h05min e descido a Avenida Brigadeiro Luis Antônio em meio a multidões que festejavam o ano-novo e a passagem de homens e mulheres que corriam através do tempo. As decorações de Natal ainda lembravam a luz e a esperança celebradas em uma outra noite, uma semana antes. E agora encarnávamos a confirmação de que, em certas noites, frestas se abrem para mundos possíveis de paz e fraternidade, para muito além de nosso medo cotidiano. Por este mistério, talvez, a presença da alegria nas ruas e o súbito silêncio no qual mergulhamos ao chegar à Praça da Sé. Porém, suaves murmúrios logo começaram a brotar do chão, subiram por nós, ultrapassaram as torres e ganharam os céus: eram ecos de milhares de e passos que corriam leves no silêncio do centro velho de São Paulo. Feito uma delicada e inesperada oração.

Já era um outro ano e no entanto ainda vencíamos o alto da consolação. Mas não nos havíamos abalado nem mesmo quando nos soubemos, ao percorrer a avenida São João e ainda tendo de voltar até o alto da Paulista, que o equatoriano Holando Vera já havia chegado lá. Era a segunda de suas quatro vitórias consecutivas na prova, como viríamos a saber dois anos depois. A também a equatoriana Martha Tenório venceria a prova entre as mulheres. De brasileiros no pódio, João Alves de Souza, Diamantino dos Santos e Adauto Domingues; no feminino, apenas a vice-campeã Angélica de Almeida. Mas dessas conquistas só saberíamos depois, bem mais tarde – ou amanhã já seria hoje? De qualquer modo, um ano teria sido outro através de inúmeras festas pelas ruas da cidade tornada presépio. Ali, fechávamos um ciclo e iniciávamos outro, no brevíssimo instante de mais uma passagem do bastão a nós mesmos.

A Paulista ainda festejava quando chegamos. Viajantes do túnel do tempo, retornamos ao presente já na reta final vindos do ano passado: a linha de chegada ao novo tempo era uma luz brilhante no meio da noite. Ao cruzá-la sabíamos – Felício Sato, Idair Chies e eu – que ainda poderíamos continuar a correr indefinidamente dentro da noite, seguir viagem no tempo e no espaço e aterrissar em algum ponto entre Maldonado e Punta del Este, no Uruguay, na corrida de San Fernando, na noite de Reis e completar a travessia dessas noites de luz seguindo uma estrela com oferendas de ouro, incenso e mirra.

Mas não prosseguimos. Apenas ficamos ali, maravilhados, encantados com nossas primícias de uma corrida noturna, em uma de suas edições. Não sabíamos ainda, mas ela em breve mudaria para a luz e o calor do dia e perderia o espírito e a magia das noites anímicas. A corrida internacional de São Silvestre ganharia outro horário, outra categoria, outro século e até mesmo um outro milênio. Mas nunca mais passaria de ano.

 

PS- texto publicado originalmente na revista Contra-Relógio, em dezembro de 2006. A crônica refere-se a 63ª.São Silvestre, realizada em 31/12/87.

 

 

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Jorge Nagao

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