JORGE NAGAO: Rádio Cabeça

 

Numa entrevista, Chico Buarque disse que quase todo mundo tem uma Rádio Cabeça. Segundo el Chico, temos no cérebro uma emissora musical que, repentinamente, é ligada “e me pego cantando sem mais nem porquê” como ele diz em “Olhos nos olhos”. Sob o chuveiro, quando a primeira gota me toca a me molha, digo, a memória, liga, automaticamente, a tal rádio Cabeça (ou Coração porque sabemos as músicas de cor), então a gente começa a cantar “A chuva cai lá fora”, “O ritmo da chuva”, “Chove chuva”, “Raindrops keep falling on my head” ou qualquer outra que o DJ misterioso manda ver ou ouvir.

Paulo Vanzolini, zoólogo e compositor, grande brasileiro que sempre deu a “Volta por cima”, vivia sempre sintonizado com a sua Rádio Cabeça pois trabalhava cantarolando, revela Ricardo Dias, seu amigo e diretor do documentário “Um homem de moral”, sobre o criador de “Ronda”. Outro sambista que vivia caminhando e cantando era o Adoniran Barbosa. Desta forma nasceram “Saudosa Maloca”, “Trem das Onze”, “Samba do Arnesto” e outras pérolas adonirantes. No filme “O tempo não para”, Cazuza dizia “cantando a gente inventa, inventa um romance, uma saudade, uma mentira. Canto para espantar os demônios, pra juntar os amigos, para sentir o mundo, para seduzir a vida”.

Quem canta os seus males espanta, diz o velho deitado. Nos anos 70, Gonzaguinha ensinava “Cantar nunca foi só de alegria, com tempo ruim a gente também dá bom dia”. Por mais que a vida o/a desencante, cante, no entanto é preciso cantar, cantarolava o poetinha Vinicius de Moraes, é preciso cantar e alegrar a cidade. Outro que canta sempre é o bancário, enquanto o outro tica. Tico-tico cá, tico-tico lá, canta, canta minha gente, já cantava Martinho da Vila nos tempos do vinil.

Com o programa microkê, por menos de R$ 20 você pode cantar enquanto vai navegando num mar imenso que é a internet. Cante num karaokê, videokê, nãoseioquê, o que você quiser, cante só ou num coral, porque cantar faz bem. Susan Boyle que o diga.

Por favor, não confunda a Rádio Cabeça com música-chiclete, como “eu quero tchu” que, de tanto tocar, gruda no seu inconsciente e você canta durante um certo tempo e depois ela nem tchans, some. A Rádio Cabeça é a trilha sonora da sua vida. Canções marcantes que dormem em sua memória ou em seu coração. Abriga de rock a sertanejo, música brega a jingle, canção infantil a Beatles, enfim, por algum motivo ela “baixa” e você, sem querer, começa a laiá laiá rará. Por exemplo, sei lá porque vivo cantando “Alguém é sempre bobo de alguém”, quando surgiu essa canção eu ainda nem era nascido… rs rs rs. O início da música era assim:“O que eu chorei por ti dá um oceano/ de lágrimas, perdido, em solidão/ acreditar em ti foi  um engano/ por que te ofereci meu coração?”, do/e com Wilson Miranda. Não é um pouco melhor do que essas letras que os sertanejos e pagodeiros nos brindam hoje em dia?

“O tempo vai apagar”, do Roberto Carlos, é inapagável na minha Rádio. “Lampião de gás”, sucesso da Inezita Barroso, com apagão ou não, não sai da minha cabeça, mas com outra letra: “Campeão demais, campeão demais, quantas conquistas você me traz”. Pronto, vendi o meu Peixe. Vamos ganhar mais um Paulista, é mentira, Tetra?!

Cuidado, no entanto, com certas músicas tristes que põem a gente pra baixo, dizem os especialistas. Não sei se é verdade, mas ouvi dizer que a canção “Esta noite eu queria que o mundo acabasse”, regravada por Bruno e Marrone, foi censurada nos anos 60 porque levou alguns incautos, que se identificaram com ela, ao suicídio.  Se o que você canta pode alterar o seu estado de espírito, então cultive canções leves, alegres ou líricas. Tristeza, por favor, vá embora, porque eu vou viver a vida que eu pedi a Deus. E salve aquele que se presta a esta ocupação, salve o compositor popular. Aquele abraço!

 

 

 

 

*Jorge Nagao,  além do Nippak e www.nippak.com.br,  também está na constelação do www.algoadizer.com.br.  E-mail: jlcnagao@uol.com.br

 

 

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