SILVIO SANO > NIPÔNICA: Delação do Fim do Mundo

Como Hiroaki veio ao Brasil com a intenção de se radicar de vez, sempre buscou meios para aprender a língua portuguesa o mais rápido possível. Como sabe que no Japão a pronúncia adotada nos noticiários televisivos é a correta, por associação, no Brasil decidiu privilegiar os mesmos, mesmo alertado por Mário de que no Brasil não era bem assim.

Em vista disso, acabou ficando tão a par da situação do país que, por si só, já concluiu que a razão se deve às proibitivas posturas dos nossos políticos em relação ao erário e, principalmente, à impunidade que sempre vigeu no país.

— Operação Lava Jato chegar tarde, né… — falou a Mário enquanto assistiam na TV o desenrolar das delações dos executivos e ex-executivos da Odebrecht — e antes que Mário lhe respondesse, acrescentou — Pena não ocorrido dez anos antes… Copa do Mundo seria bem melhor… e sem Ele… Elefantes Brancos, né!

Mário desviou o olhar para ele, admirado:

— É verdade, Hiro. Ou… podia até nem ter ocorrido… porque o país tinha outras prioridades!

Hiroaki pareceu não ter entendido, prosseguindo no assunto da TV:

— Quanta gente poderosa! Ministros, senadores, deputados federais. Como possível? Alguns tudo bem, mas tanta gente d’uma só vez… Culpa? Oras… Impunidade! — afirmou com convicção.

Mário riu sem jeito.

— Também acho, Hiro. Foi a impunidade que… com foro privilegiado, transformou-se em banalidade.

O japonês olhou-o buscando explicação. Mário entendeu:

— Você sabe o que é banalidade, né? — ao sinal afirmativo de Hiro, Mário prosseguiu: — Pois é, livres de punição, o “também quero” foi se tornando banal.

Hiro ficou mais confuso ainda.

— Pois é. Por isso o número tão grande de políticos citados — explicou — Passar ileso foi se tornando tão comum que até alguns que chegaram lá sem essa intenção acabaram entrando na dança també… — interrompeu-se ao olhar para um Hiro com ar ainda indagativo e, então, preferiu desconversar — No Japão não tem nada disso, né, Hiro?

Nom! — respondeu ele, de pronto — Desde criança a gente aprende não pode prejudicar outro. Dinheiro público… do outro… político ter de cuidar bem — fez uma pausa — Não cuida, punição grande!

— Ah… é! — Mário interrompeu-o — Ouvi dizer que alguns pegos chegam até ao suicídio.

— Pois é — Hirou fechou o semblante — Pra defender honra da família! No Japão, fazer coisa vergonhosa, desonrar toda família. Vizinhos, amigos, ninguém mais querer saber nem da família!

— Caramba! É como aquele tal haraquiri? Dos samurais? — Mário tentou mostrar um pouco de conhecimento.

— Como nosso país, sociedade das aparências, qualquer um pensar bem antes de fazer algo que não poder — fez nova pausa — Mesmo assim, um ou outro faz, né. Por isso quase não ter!

— Aqui, Hiro, como está vendo… isso até passa de pai para filho, primos, amigos, amantes, etc., etc.

Hiroaki riu. Mário, não!

 

E são arrogantes!

Culpa da impunidade!

Vamos lavar à jato!

 

 

SILVIO SANO

SILVIO SANO

é arquiteto, jornalista e escritor.

E-mail: silvio.sano@yahoo.com
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